Canto moderno

por Camila Fresca 01/10/2018

Cada vez mais ligada à música contemporânea, a soprano Manuela Freua interpreta as Folk Songs de Luciano Berio

Em 2015, a soprano Manuela Freua realizou uma elogiada performance de Pierrot lunaire, de Arnold Schönberg, na Sala São Paulo. Era sua estreia na obra – um marco da música do século XX –, e àquela altura ela não sabia como a experiência seria fundamental em sua carreira. A preparação levou um ano. “Há o desafio do Sprechgesang, mas, na partitura, as indicações são vagas”, afirma. “Escutei algumas cantoras: tinha quem simplesmente cantava todas as notas, enquanto outras só declamavam o texto no ritmo. Martha Herr, pouco antes de morrer, foi uma das primeiras a me ajudar. Resolvi aprender as notas, como se fosse cantá-las, e então desconstruir o que tinha aprendido.” De lá pra cá, seu nome foi associado ao repertório moderno e contemporâneo, o qual ela tem sido chamada para interpretar com frequência.

Soprano jovem, mas já experiente, Manuela completa, em 2018, 15 anos de carreira. Sua iniciação musical se deu ao piano, aos 6 anos de idade. “Com 12 anos, resolvi que ia fazer música, mas, em determinada altura, entendi que não queria ser pianista. No colégio tinha sempre a rodinha com violão, e eu me metia a cantar. Na hora de prestar vestibular, resolvi fazer canto”, relembra. Ela cursou música na Unesp e foi orientada por Isabel Maresca. Premiada nos Concursos de Canto Maria Callas e Bidu Sayão, aperfeiçoou-se, como bolsista Vitae, na Academia Ferenc Liszt de Budapeste. “Quando descobri que canto significava música e texto, simplesmente me encontrei. Para mim, nunca foi uma coisa de culto à voz, mas, sim, de texto, texto com música, incluindo a performance”, explica.

Manuela Freua [Divulgação / Hermanas Vasconcelas]
Manuela Freua [Divulgação / Hermanas Vasconcelas]

Nos dias 13 e 14 deste mês, ela se apresenta com a Orquestra do Theatro São Pedro e o maestro Ricardo Bologna num programa dedicado à música dos séculos XX e XXI. Manuela fará as Folk Songs, ciclo de canções composto em 1964 por Luciano Berio. A preparação foi meticulosa: “Antes de ouvir qualquer gravação, fui aprender a música. Depois, fui atrás de diferentes registros para pesquisar as pronúncias das línguas menos conhecidas, como armênio e azeri (Azerbaijão). Por fim, comecei a pesquisar sobre cada uma das canções: não exatamente as que vou cantar, mas a tradição de cada uma. Escutei o canto da Sardenha, da Sicília, para fazer uma vocalidade parecida. Acho importante cantar não apenas a melodia, mas tentar reproduzir, mesmo que estilizadamente, a intenção daquele canto”.

Em paralelo aos convites para cantar, ela desenvolve dois projetos: um CD recém--lançado com obras para voz e violino, ao lado de Emmanuele Baldini, e um espetáculo com a flautista Cláudia Nascimento, o que também deve virar um CD.

Manuela afirma que este está sendo o ano “mais maravilhoso” de sua carreira, já que tem emendado compromissos e projetos que a entusiasmam. Mas nem sempre foi assim. Num país em que as oportunidades profissionais para os cantores são poucas, ela diz que “é preciso ter um plano B”. No caso dela, dar aulas. “Eu gosto muito, tenho muitos alunos e sou grata a eles, pois permitem que eu viva de música.” No limite, vale até se perguntar que carreira é possível um cantor fazer no Brasil: “Não dá pra dizer que começamos com o papel X e, daqui alguns anos, quando a voz tiver evoluído, é que vamos encarar o papel Y. A voz evolui, claro, e com a maternidade ela também muda [Manuela é mãe de Stella, de três anos], mas aqui fazemos o que nos chamam para fazer”. Em seu caso, as coisas engrenaram quando ela se encontrou no repertório de câmara e também no do século XX, com programas que unem performance e até música popular, uma de suas paixões – ela começou a carreira como cantora de jazz, ainda hoje uma atividade paralela. “Mais recentemente, talvez por ter feito coisas modernas, tenho ressuscitado esse lado popular. Fiz em Manaus um espetáculo baseado em composições de Björk, a convite de Marcelo de Jesus, na série Encontro das Águas. A música popular nos dá uma musicalidade e uma flexibilidade que o canto lírico não permite e, nesse sentido, ela se aproxima do repertório moderno e contemporâneo.” 


AGENDA
Orquestra do Theatro São Pedro
Ricardo Bologna
– regente
Manuela Freua – soprano
Dias 13 e 14, Theatro São Pedro (São Paulo)