Balanço e futuro

por Camila Fresca 01/03/2019

Entrevista com a maestrina Marin Alsop

Em 2012, a norte-americana Marin Alsop assumia a regência titular e, pouco depois, a direção musical da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Após oito temporadas, 2019 é seu último ano à frente do conjunto; e, a partir de 2020, ela será a primeira “regente de honra” do grupo. Violinista de formação, Alsop é também regente titular da Orquestra Sinfônica de Baltimore. Após décadas de trabalho, com frequência sendo apontada como pioneira numa posição predominantemente masculina, ela vê sua carreira em franca ascensão: foi premiada por sua liderança na promoção da diversidade na música no último Fórum Econômico Mundial de Davos e, a partir de setembro, assume a Orquestra Sinfônica da Rádio de Viena, posto prestigiado e que pela primeira vez será ocupado por uma mulher. Alsop é reservada e de fala concisa. Às vésperas da turnê da orquestra para a China, logo após um dos últimos ensaios, ela recebeu a Revista CONCERTO para uma entrevista. Bem-humorada e ansiosa com a viagem, fez um balanço de seu trabalho com a Osesp. 

Marin Alsop [Divulgação / Adriane White]
Marin Alsop [Divulgação / Adriane White]

Este é seu último ano como diretora musical e regente titular da Osesp. São, ao todo, oito temporadas. A orquestra que você deixa é diferente da que encontrou? 
Acredito que conseguimos desenvolver um grande potencial que já estava aqui quando cheguei. A orquestra hoje é mais disciplinada, exibe uma gama expressiva muito mais ampla, tem integridade rítmica, habilidades musicais. Creio que está em condições de atrair um maestro de alto nível, o que é muito importante. Acredito que eles sentem que todo o nosso trabalho ao longo desses anos está florescendo, se consolidando. Percebi isso claramente durante essa preparação para a turnê.

No Brasil, muitas das críticas em torno de seu trabalho mencionam o pouco envolvimento com o grupo, o fato de você ficar menos tempo do que o necessário para desenvolver o trabalho. O que você tem a dizer sobre isso?
Eu não sei… Para regentes e diretores musicais que estão em atividade, tenho um contrato típico. Na verdade, fico mais tempo com a orquestra que a maioria. Além disso, passo mais tempo trabalhando quando não estou aqui. Por exemplo, estou sempre em contato com a administração, conversando sobre a equipe, sobre como podemos atrair candidatos de alto nível para audições. Quando vou a lugares, ouço candidatos. Então, as pessoas não sabem tudo o que estou fazendo. 

O que se diz é que, por ser uma orquestra ainda jovem, o ideal é que a Osesp tivesse alguém mais perto no dia a dia. 
Não concordo que seja uma orquestra tão jovem. E eles já tiveram alguém que ficava aqui todo o tempo e me parece que não foi tão bom. Eu não sei, acredito que nosso contato foi balanceado, houve um bom tempo e atingimos mudanças reais. Tivemos projetos incríveis, fizemos ótimas turnês, gravações fantásticas, grandes concertos aqui na Sala São Paulo. Cuidamos do Festival de Campos do Jordão, iniciei uma academia de regência, o coro se aprimorou. Sinto que fizemos muita coisa. Eu não sei mais o que queriam que eu fizesse.

Você sai do cargo satisfeita com o trabalho desenvolvido? Há algo que não tenha conseguido fazer?
Uma boa novidade é que nesse novo posto de “regente de honra” nós estamos falando de fazer ao menos um programa por ano, talvez projetos especiais de tempos em tempos – um repertório que a orquestra nunca fez, uma encomenda de obra, levar o grupo a lugares diferentes do Brasil. Então, vou continuar com eles e estou feliz por isso. Sinto que desenvolvemos um ótimo relacionamento e seria uma pena perdê-lo.

“Acredito que nosso contato foi balanceado, houve um bom tempo, atingimos mudanças reais. Tivemos projetos incríveis, fizemos ótimas turnês, gravações fantásticas”

O que você deixa como maior contribuição para a Osesp? Qual é seu legado? 
Creio que a sonoridade da orquestra. Hoje ela é capaz de fazer um pianíssimo realmente muito bonito, por exemplo. Esse é um tipo de coisa que trabalhei com eles a cada dia que estivemos juntos. Tem a ver com a ideia de ser um ensemble, um conjunto. É interessante, o Brasil é um país tão variado, as pessoas vêm de lugares diferentes, têm opiniões, bagagens culturais diferentes. Numa orquestra, isso é uma vantagem, pois dá uma diversidade real. Mas partir disso para se criar um ensemble é um desafio. Acredito que fomos bem-sucedidos. 

Está participando da escolha do próximo titular? Qual seria o perfil ideal do próximo regente? 
Não estou me envolvendo nessa escolha. Mas acredito que agora a orquestra está em condições de atrair alguém que tenha um bom trânsito internacional. Isso é importante para abrir as portas em todos os lugares. Espero que seja alguém de visão, que pense a orquestra e as coisas que ela é capaz de fazer. E, claro, que seja um excelente regente.

Está animada para iniciar o trabalho em Viena? Pode falar sobre seus planos?
Estou muito entusiasmada com o trabalho em Viena porque, claro, é o local de nascimento da música clássica, mas, ao mesmo tempo, uma cidade conservadora. Espero contribuir para mudar a forma como as pessoas enxergam a música clássica. A temporada ainda não foi anunciada, não posso adiantar muito. Mas é uma orquestra de rádio, tem um perfil diferente, não precisa tocar só repertório standard, faz muita música contemporânea. Música de europeus, alemães, austríacos contemporâneos. Esse é um novo universo para mim. No entanto, estou sempre interessada em desenvolver meios de atrair jovens músicos para as orquestras, seja aqui por meio da academia, seja lá – vamos começar um programa junto com o Coro dos Meninos Cantores de Viena, incluindo algumas crianças tocando instrumentos. Para mim, só reger concertos não é suficiente. Quero ser uma embaixadora das orquestras. 

Sua carreira continua em plena ascensão, com um prêmio em Davos e o novo posto em Viena. Creio que, de um lado, você representa uma grande esperança e inspiração para as mulheres na regência ou mesmo em postos de comando.
Ah, obrigada, espero que sim.

De outro, você também é uma representante de líderes musicais que pensam o papel da música no século XXI. Como você enxerga essas questões?
A música é minha língua e minha paixão, é o veículo que utilizo para me comunicar com as pessoas. Fico feliz em trabalhar com mulheres jovens, dando-lhes suporte. Acredito que, para as mulheres, é muito difícil quando não se tem ninguém com quem conversar, quando você se sente sozinha. Espero que elas olhem para mim e pensem: “Não estou sozinha”.

Um dos meios de se viabilizar a música clássica é relacioná-la a projetos sociais. Você acha este um bom caminho? 
Acho que é uma união maravilhosa. Música clássica é algo a que qualquer um pode aspirar. E todas as crianças deveriam ter a oportunidade de tocar um instrumento, se expressar por meio da música. Essa união beneficia também a orquestra, pois cria a audiência do futuro, os músicos do futuro. É fantástico fazer uma parceria dessa natureza. A música se torna para eles – como foi para mim – um caminho, um refúgio para lidar com as questões da vida. 

Que lembrança você levará de suas estadias no Brasil e de seu trabalho aqui?
Eu amo trabalhar nessa sala. É bonita, e nosso público é extraordinário. Tivemos tantos bons momentos. Para mim, todos os Mahlers foram especiais. Vamos fazer a Oitava nesse ano, o que me deixa feliz. Adoro trabalhar com o coro. Além disso, ter feito o Too Hot to Handel, em dezembro último, na parte de fora do Masp, com milhares de pessoas, ou ainda as muitas vezes em que tocamos em Santos, na praia, tendo 20 mil pessoas: tudo isso foi muito emocionante.

A primeira vez que conversamos, esperei enquanto você terminava uma aula de português. Conseguiu aprender a língua?
[Respira fundo e fala em português] Eu falo um pouco, mas é difícil, por não estar constantemente aqui… [Novamente em inglês] Quando chego, me acostumar com a mudança de língua é difícil. Consigo entender, mas falo pouco. E devo dizer que fiquei deprimida, pois, quando Valentina chegou aqui [a italiana Valentina Peleggi, regente do coro], em um mês ela estava entendendo, no segundo mês começou a falar e no terceiro estava me ajudando! [risos]

Obrigada pela entrevista. 


AGENDA
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Marin Alsop – regente / Augustin Hadelich – violino
Dias 21, 22 e 23; dia 24 (sem solista), Sala São Paulo
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop
– regente / Camila Titinger – soprano / Lucas Thomazinho – piano 
Dias 28, 29 e 30, Sala São Paulo