Afinidades musicais

por João Luiz Sampaio 01/03/2019

Violoncelista Antonio Meneses e pianista Cristian Budu falam sobre suas apresentações deste mês, que abrem as temporadas da Cultura Artística e da Dell’Arte

Na primeira vez em que o pianista Cristian Budu se apresentou ao lado do violoncelista Antonio Meneses, chovia quase dentro do palco. Foi em 2015, quando o Festival Vermelhos de Ilhabela dava ainda seus primeiros passos. 

“Eu lembro que foi uma aventura. E que eu estava ansioso. Era um momento atribulado, estava em uma fase de aprender muito repertório novo, e íamos tocar o Trio de Mendelssohn. Com 26 anos, dava certo medo dividir o palco com Meneses e com Cláudio Cruz [violinista] ”, lembra.

Na segunda vez, seriam só os dois. Não havia a chuva. “Mas eu tinha acabado de gravar o Concerto nº 1, de Tchaikovsky, com a Orquestra Jovem do Estado e  Cláudio Cruz, e tive que sair correndo para o Rio de Janeiro para tocar com  Meneses na Sala Cecília Meireles, muito gripado”, recorda, divertindo-se. Deu tudo certo.

A terceira vez foi no ano passado, em Florianópolis. Sem incidentes. E, agora em 2019, eles fazem uma nova série de apresentações, explorando ainda mais as afinidades musicais que aproximam dois dos principais músicos brasileiros da atualidade. Depois de um recital em Glasgow, na Escócia, em fevereiro, os dois abrem, nos dias 19 e 20, a temporada da Cultura Artística, na Sala São Paulo; e, no dia 21, a série da Dell’Arte, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Apresentam-se ainda em São José dos Campos e Londrina.

Antonio Meneses [Divulgação / Studio Fotográfico Gielle]
Antonio Meneses [Divulgação / Studio Fotográfico Gielle]

Respeito ao compositor

O nome de Meneses está consagrado no imaginário do público. Vencedor de concursos como o Tchaikovsky, gravou com Herbert von Karajan, apresentou-se com algumas das principais orquestras da atualidade, comandadas por grandes maestros, integrou o Beaux Arts Trio e já percorreu o Brasil e o mundo como solista e recitalista – fazendo da música de câmara o eixo de sua personalidade profissional. 

O mesmo pode se dizer de Budu: rejeitando os moldes do pianista tradicional, define como camerístico tudo aquilo que faz, de concertos com orquestras a recitais do Pianosofia, projeto criado por ele para difundir a música de câmara entre intérpretes e plateias. Desde que ganhou o Concurso Clara Haskil, na Suíça, em 2013, sua carreira está em ascensão – neste ano, por exemplo, faz sua estreia no Festival de Verbier.

Meneses está com 61 anos; Budu, com 30. Há três décadas entre eles, mas o tempo não impede que compartilhem alguns princípios como artistas. “Nós nos damos muito bem porque em geral sinto que temos ideias bastante parecidas sobre música”, diz Meneses à Revista CONCERTO. “Temos prazer de tocar um com o outro, respeitamos o compositor e queremos que ele seja a estrela da apresentação.” 

Cristian Budu [Divulgação]
Cristian Budu [Divulgação]

Budu conta que se apresentar com Meneses tem sido um aprendizado. “Ele tem um jeito muito caloroso e nos damos bem musicalmente. Mas, claro, cresci o ouvindo tocar. Lembro-me bem, por exemplo, de uma apresentação dele com a Maria João Pires em Campos do Jordão. Então, é sempre emocionante estar com ele no palco. Tocar com ele é algo que nos faz crescer como músicos”, diz o pianista, animado com a possibilidade de, ainda neste ano, gravar com o violoncelista a Sonata de Rachmaninov, a qual eles apresentaram pela primeira vez em 2018, em Florianópolis.

Nos recitais deste mês, no entanto, o programa gira em torno das obras de Bach e Villa-Lobos. A ideia partiu de Meneses. “É aniversário de 60 anos da morte de Villa-Lobos e sabemos que ele venerava Bach. Então teremos as sonatas [BWV 1027, BWV 1028 e BWV 1029] de Bach, movimentos das Bachianas brasileiras e a Sonata nº 2 de Villa-Lobos, obra sensacional que precisa ser mais conhecida”, afirma.

“Nos outros programas que fizemos, Meneses sempre trouxe ideias interessantes”, diz Budu. “Foi, aliás, uma das primeiras coisas que ele me disse quando nos conhecemos: precisamos ter em mente o fato do público querer sentir que uma história está sendo contada no palco por meio da música. E isso ele me ensinou não apenas na montagem de um programa, mas também tocando.” 


AGENDA
Antonio Meneses
– violoncelo / Cristian Budu – piano
Dia 15, Teatro Ouro Verde (Londrina, PR)
Dia 16, Bosque Imperial (São José dos Campos, SP)
Dias 19 e 20, Sala São Paulo
Dia 21, Theatro Municipal do Rio de Janeiro