Rumo ao oeste

por Jorge Coli 01/05/2019

Em busca de concertos com alma e com vida? Não hesite: vá para Campinas

Você quer concertos vibrantes, reveladores, que lhe conduzam às nuvens, que façam esquecer as mesquinharias do mundo? Concertos que estejam além da perfeição rotineira, da alta qualidade que se dá como obrigação? Concertos com alma e com vida, em que a música exalta descobertas e surpreende?

Não hesite: vá para Campinas. A Sinfônica de Campinas está numa fase formidável. Os programas são cuidados, temperados com gosto, os solistas são escolhidos do modo mais adequado.

Orquestra Sinfônica de Campinas [Divulgação]
Orquestra Sinfônica de Campinas [Divulgação]

É curioso como a música pode cair fácil na rotina. As mais importantes formações orquestrais, capazes de sublimes sonoridades, nem sempre escapam. Maestros internacionais, que correm aqui e ali, assumindo orquestras na China, na Lapônia, nos cafundós dos judas, ou mesmo nos grandes centros – Berlim, Paris, Nova York, Leningrado – delegam as preparações muitas vezes aos seus assistentes, regem corretamente, com belos sons decerto, mas, como diria Rousseau, “deixam tudo no lugar”, ou seja, não mexem no espírito e no coração. Pendurem nesse quadro um solista que toca pela milésima vez o número quatro de Beethoven ou o concerto para violino de Tchaikovsky, e temos música de qualidade, mas razoavelmente entediante.

No lado oposto, há intérpretes que se empenham e dão a alma. Um repertório que se adapta e faz progredir a orquestra. Solistas que descobrem novas obras e que fazem vibrar.

Grande exemplo de música viva foi o concerto a que pude assistir no dia 13 de abril, no campineiro Teatro Castro Mendes. 

Na primeira parte, o prelúdio do primeiro ato de Parsifal, de Wagner, e o “Encantamento da Sexta-feira Santa”. A Sinfônica de Campinas respondeu com brilho ao comando de Victor Hugo Toro, maestro titular. Interpretação inteligente, madura, e som de grande qualidade. Nenhum efeito excessivamente romântico, mas habilidade em moldar os detalhes e controlar as cores orquestrais. 

A Sinfônica de Campinas tem mostrado intérpretes que se empenham e dão a alma

Na segunda parte foi oferecida, pela primeira vez na história de Campinas, A canção da terra, conjunto de seis cantos sinfônicos em que se alternam dois cantores solistas, tenor e soprano. Mahler reuniu versos de Li Bai, poeta chinês que viveu no século VIII, cujos sentidos balançam entre o prazer de viver, a expectativa da morte e o abandono à transcendência da alma. Música de nostalgia, de consolo, mas também de busca por forças vitais; o compositor acumulara, no momento da composição, uma sequência de infelicidades: demitido de sua função como diretor da ópera de Viena por antissemitismo, morte de sua filha aos 4 anos de idade, descoberta de grave doença cardíaca, crise conjugal porque Alma Mahler o abandonara pelo arquiteto Walter Gropius – esses abalos estão na gênese de A canção da terra, que Mahler chamou de “sua obra mais pessoal”.

Na minha cabeça – e que isto fique entre nós –, sempre pensei A canção da terra como um elo entre o segundo ato de Parsifal e Turandot de Puccini. A exuberância da orquestração, que sabe ser também tão delicada, articula-se com a beleza das palavras e das imagens sonoramente evocadas.

É uma obra que exige tremendamente dos músicos e, em particular, dos solistas. As terríveis tensões impostas à parte do tenor, que fazia tremer Patzak na imortal primeira gravação da obra, dirigida pelo maestro Bruno Walter, foram belamente vencidas por Paulo Mandarino. Ele soube cantar os elogios da embriaguez com o fundo desesperado daquele que esvaziou a taça até o fim para descobrir que apenas o vazio permanece como a última cognição. 

Mahler pediu um contralto para os solos femininos, e o modelo interpretativo é de Kathleen Ferrier na gravação de Walter. No entanto, a mezzo soprano Ana Lúcia Benedetti, com seus graves suntuosos, não tinha com que se preocupar, muito ao contrário. Sua voz é soberba, com graves suntuosos e belíssimo timbre muito homogêneo. A última canção, “A despedida”, é a mais longa e o apogeu da obra. Benedetti cantou com voz cálida, soando como se viesse de infinitas alturas, às vezes luminosa, às vezes sombria, nada sentimental, mas profundamente dolorosa. A fusão com os timbres da orquestra, numa interação entre solista e maestro, foi prodigiosa. O fim, com a repetição da palavra Ewig, “eterno”, atingiu um ponto extremo de comoção.

Em suma: você quer concertos vibrantes, reveladores, que conduzam às nuvens, que façam esquecer as mesquinharias do mundo? Concertos com alma e com vida, em que a música exalta descobertas e surpreende? Vá para Campinas. 


AGENDA
Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas
Bruno Borralhinho
– regente e violoncelo
Dias 11 e 12, Teatro Castro Mendes (Campinas)
Victor Hugo Toro – regente
Flávio Leite – tenor
Dias 17 e 18, Teatro Castro Mendes (Campinas)
Lee Mills – regente
Sonia Rubinsky – piano
Dias 25 e 26, Teatro Castro Mendes (Campinas)