Mergulho no transcendental 

por Leonardo Martinelli 01/05/2019

Tesouro ainda desconhecido do público, obras para piano e orquestra de Almeida Prado ganham interpretações de Sonia Rubinsky

Vamos a um clichê conveniente: o Brasil é um celeiro privilegiado de artistas. Agora, uma verdade inconveniente: desfrutamos muito pouco da arte de nossos talentos nacionais, por isso não a valorizamos e, como consequência, o restante do mundo tem uma noção bastante reduzida de nossa real produção artística. Na música clássica, essa situação é especialmente grave, pois, apesar de muitos de nossos compositores constarem em verbetes de renomados dicionários e enciclopédias, na prática é bem difícil ter acesso a esse repertório que ainda esconde muitas preciosidades a ser descobertas – seja nas salas de concertos, seja em gravações profissionais.

No entanto, neste mês um riquíssimo baú de sons e cores que integra esse tesouro musical vem à tona a partir dos concertos e da gravação de obras para piano e orquestra de Almeida Prado (1943-2010). Natural de Santos, o compositor é um dos principais nomes das artes brasileiras da segunda metade do século XX. Além de ser autor de uma numerosa e diversificada obra musical, era um pianista de talento e um professor inspirador, tendo influenciado diferentes gerações em seus anos de docência na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E foi nessa cidade do interior paulista que a pianista Sonia Rubinsky iniciou seu contato com o mestre.

“Meu relacionamento com Almeida Prado data de muitos anos de convívio e amizade. Uma conversa musical que nunca terminava; aprendi muito por osmose, pois o ouvi tocar bastante e absorvi a maneira dele pensar música”, relata a pianista, campineira de nascimento, mas que há anos reside em Paris, de onde articula uma notável carreira internacional, na qual destaca-se a gravação da obra integral para piano solo de outro gigante da música brasileira, Heitor Villa-Lobos, pelo renomado selo Naxos (que também lança em junho uma nova série dedicada pela pianista a Bach).

Aliás, o poderoso selo global sediado em Hong Kong entra novamente na trajetória de Rubinsky, uma vez que essa empreitada sobre as obras concertantes de Almeida Prado integrará o projeto “Brasil em Concerto”, que, em parceria com o Itamaraty, prevê o lançamento de trinta álbuns inteiramente dedicados ao repertório nacional. Acompanhada pela Filarmônica de Minas Gerais, sob a regência de seu titular Fabio Mechetti, nos dias 9 e 10 a pianista sola Aurora, peça de alto teor programático e descritivo, e na semana seguinte (dias 16 e 17), o monumental Concerto para piano e orquestra nº 1, ocasiões em que ambas as obras serão gravadas. Em estúdio, a presença da pianista em solo mineiro será aproveitada para registrar também o singular Concerto fribourgeois, que no dia 25 ela apresenta com a Sinfônica de Campinas, sob a regência de Lee Mills.

Sonia Rubinsky [Divulgação]
Sonia Rubinsky [Divulgação]

“Esses concertos ilustram várias vertentes da obra de Almeida Prado”, analisa Rubinsky. “Aurora é a mais aleatória e aberta das três. Tem uma orquestração impressionante e transparente, e, pela relação de seu tema com elementos como cores, sol, pássaros e natureza, ela encerra uma faceta fortemente descritiva, na qual às vezes o piano nem parece piano. Uma peculiaridade é o uso do pedal de sustentação, que mistura sonoridades entre diferentes acontecimentos harmônicos, como se fosse um caleidoscópio, o que me faz estabelecer relações com as atividades que Almeida Prado tinha como pintor.”

Por sua vez, a pianista vê no Concerto nº 1 outro universo. “Trata-se de uma obra diferente de Aurora, sem elemento descritivo, pois basicamente é um tema com variações articulado em um longo e coeso arco. É uma peça de um pianismo transcendental e virtuosístico: mãos alternadas, trêmulos, uso da tessitura total do teclado, enfim, uma peça que exige bastante fôlego. Para mim, é um dos grandes concertos para piano brasileiro, junto com as Bachianas brasileiras nº 3 de Villa-Lobos e os Concertos de Camargo Guarnieri.”

A riqueza de inspiração e a maestria de Almeida Prado ficam bem ilustradas quando a esse conjunto soma-se o Concerto fribourgeois, que, segundo a pianista, é uma verdadeira joia da coroa. “Nessa peça ele utiliza vários elementos do período barroco, tais como recitativos, ariosos e um moto perpetuo, mas numa linguagem absolutamente moderna. Apesar de ser para uma formação menor – aqui o piano é acompanhado apenas por uma orquestra de cordas –, trata-se de uma música gigantesca em seu conteúdo.”

Para além da oportunidade de ouvir e gravar essas obras, a empreitada deixa outro legado importante, que são as respectivas partituras dessas peças. Até então, elas estavam disponíveis apenas de forma manuscrita, e a partir de agora serão editadas e revisadas à luz dos ensaios e das apresentações realizadas, possibilitando que esse tesouro também seja uma herança para outros músicos, além de nossas fronteiras. 

AGENDA
Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Fabio Mechetti – regente
Sonia Rubinsky – piano
Dias 9, 10, 16 e 17, Sala Minas Gerais (Belo Horizonte)
Orquestra Sinfônica de Campinas
Lee Mills
– regente
Sonia Rubinsky – piano
Dias 25 e 26, Teatro Castro Mendes (Campinas)