Memórias do futuro

por Leonardo Martinelli 01/06/2019

Orquestra Sinfônica da USP realiza estreias mundiais de obras de Mário Ficarelli e Aylton Escobar

No universo da música clássica, o cotidiano tanto do profissional como do público se baseia em experiências com obras na maioria criadas séculos atrás. E é justamente esse status quo que faz da estreia mundial de uma peça fato de especial interesse, uma vez que estaremos diante de uma obra de arte de nosso tempo, criada por alguém com quem você poderia ter pego elevador ou dividido o espaço num balcão de padaria, não por um rosto do passado desenhado em um livro ou em um encarte de CD.

Atualmente, o padrão das estreias mundiais mundo afora consiste na execução de uma obra encomendada para determinada ocasião a um compositor, que na maioria das vezes sabe de antemão não apenas quem serão os intérpretes de sua nova criação, como as outras peças que lhe farão companhia no concerto, garantindo, assim, o frescor de novidade e ineditismo da empreitada. No entanto, na arte, tal como na vida, surpresas podem ocorrer, e o concerto que a Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (Osusp) fará no dia 15 deste mês, sob a regência de Ricardo Bologna, reúne diversas delas.

A primeira está no fato de o programa trazer um repertório totalmente dedicado à música sinfônica brasileira, algo ironicamente difícil de encontrar mesmo por aqui, na terra brasilis. A outra novidade é que no programa consta não uma, mas duas estreias mundiais: uma encomenda para Aylton Escobar (1943), Lírica esquecida em 1960, e Concerto para piano, percussão e cordas, de Mário Ficarelli (1935-2014); estas terão como companhia obras de Camargo Guarnieri e Heitor Villa-Lobos. A terceira surpresa é a trajetória e a natureza das peças a ser estreadas, cada qual divergindo do padrão descrito anteriormente.

Aylton Escobar [Divulgação]
Aylton Escobar [Divulgação]

Escobar já trabalhava em outras duas peças quando recebeu a proposta de encomenda da Osusp. Pego de surpresa não apenas pela oportunidade, mas também pelo exíguo tempo que teria para o projeto, o compositor decidiu revisitar uma série de ideias e fragmentos musicais que havia elaborado na década de 1960 e trabalhá-los à luz das possibilidades de uma orquestra sinfônica. Além disso, mais que simplesmente pegar algo à mão, o que motivou o compositor a retomar esse material foi a carga emocional e afetiva desses fragmentos, frutos de uma “época assustadora”, que é como o compositor percebe também a contemporaneidade.

“A década de 1960 não foi das décadas das mais entusiásticas, embora escondesse bons momentos para criatividade e rebeldia. Como experiência pessoal, foi uma época muito assustadora, cheia de contradições. Foi quando me mudei de São Paulo para o Rio de Janeiro, deixando de lado os estudos e a influência de Camargo Guarnieri, me abrindo para novas sonoridades musicais e experiências artísticas. Adorava viver no Rio, mas sentia muitas saudades de São Paulo. Foi uma época em que tive a alegria de ser premiado e reconhecido como artista, mas quando também testemunhei os horrores da repressão, de amigos presos e desaparecidos”, relata Escobar, cuja peça a ser estreada traz para nossa época (também ela bastante conturbada) a energia e a tensão daqueles tempos intensos.

Obra de Aylton Escobar propõe relação entre os anos 1960 e o nosso tempo

A outra estreia não é fruto de uma encomenda, mas, sim, do “canto do cisne” de um dos mais prolíficos compositores brasileiros dos últimos tempos. As circunstâncias que levaram Ficarelli a compor seu Concerto não estão totalmente claras, uma vez que não havia formalmente uma encomenda para obra, e sim a possibilidade de ela ser solada por um amigo percussionista do compositor (na apresentação, os solos ficarão a cargo da pianista Karin Fernandes e do percussionista Fernando Hashimoto). Concluído em 2013, Ficarelli não viveu a tempo de ouvi-lo, o que torna esse concerto ainda mais especial.

“Como músicos, nós somos muito influenciáveis por gravações e referências associadas ao repertório tradicional. Mas aqui tudo é novo, e quando estreamos uma obra, você será a primeira referência. Não é complicado ou especialmente difícil, mas é muito mais envolvente”, reflete Bologna, que conta com várias estreias mundiais em seu currículo como regente e percussionista. De certa maneira, essas mesmas palavras servem de convite para o público: o novo não é necessariamente mais difícil e com certeza nos envolve, emociona e provoca de forma muito mais intensa. Afinal, toda obra moderna fala muito do que somos. 


AGENDA
Orquestra Sinfônica da USP
Ricardo Bologna
– regente / Karin Fernandes – piano 
Fernando Hashimoto – percussão
Dia 14 (ensaio aberto), Centro de Difusão Internacional da USP
Dia 15, Sala São Paulo