O ano do renascimento

por Redação CONCERTO 01/01/2023

Artistas, produtores e gestores fazem um balanço do que foi o ano musical em 2022, que trouxe a sensação de normalidade após dois anos de pandemia

Passados dois anos de pandemia, a sensação foi de alívio. Se, em 2021, o retorno às atividades já se esboçava, 2022 significou a volta à normalidade para o meio musical. Sem cancelamentos rotineiros, sem necessidade de adaptar programações de última hora e com o reencontro definitivo com o público. Com a possibilidade de planejar o futuro. A pandemia, sabemos, trouxe reflexões importantes para o meio musical. E artistas e instituições, no retorno, lutaram para não as deixar no passado. Há enormes desafios. Mas foi possível, mais uma vez, fazer música. 

“Após dois anos de resiliência, 2022 simbolizou um renascimento quase pleno das atividades musicais no país. Para a Filarmônica de Minas Gerais, foi um ano extremamente especial. Além da proposta de programação diversificada, rica e de grande qualidade, tivemos a oportunidade de realizar nossa primeira turnê europeia, quando da celebração dos 200 anos da Independência do Brasil, em concertos realizados em três cidades portuguesas: Lisboa, Porto e Coimbra”, diz o maestro Fabio Mechetti, diretor artístico da Filarmônica de Minas Gerais.

Na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a percepção foi semelhante. “Parece que 2022 foi uma lufada de ar fresco para músicos e plateia, levando para longe as dificuldades dos anos em que a pandemia nos obrigou a ajustes inesperados. Conseguimos, ao fim de três anos, ter um sentimento de retorno à normalidade. A temporada, nomeada Vasto mundo: clássicos modernistas em celebração à Semana de Arte Moderna, transcorreu quase completamente como planejada”, afirma Marcelo Lopes, diretor executivo da Fundação Osesp. 

Para o grupo, o ano trouxe novidades importantes. Além de uma turnê norte-americana, a orquestra anunciou em novembro a saída de Arthur Nestrovski do posto de diretor artístico, após 13 anos, sendo substituído em suas funções pelo diretor musical Thierry Fischer. 

Outra orquestra a partir em viagem foi a Sinfônica de Porto Alegre. “É difícil dimensionar a importância de 2022 para a Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, tamanhas suas conquistas. Sempre fomos uma orquestra viajante, dedicada à democratização da música. Nesse ano, além das já tradicionais incursões pelo interior do Rio Grande do Sul, cruzamos a fronteira com a Argentina. Pela primeira vez, a Ospa subiu ao palco do Teatro Colón e encheu de orgulho os brasileiros com uma apresentação histórica. Um mês depois, desembarcamos em outra joia arquitetônica, a Sala São Paulo”, diz o diretor musical Evandro Matté. 

Rodrigo Toffolo, maestro e criador da Orquestra Ouro Preto, que em 2022, entre outros projetos, estreou uma ópera encomendada a Tim Rescala, O auto da compadecida, coloca em perspectiva a importância do retorno definitivo aos teatros. “Nenhuma premiação, distinção, diplomação ou medalha chega perto da importância de fazer música para o público e dentro de um teatro. E 2022 simboliza isso, em sua mais pura essência. A agenda turbulenta pela retomada nos colocou frente a frente com nossa plateia, e tivemos mais uma vez a certeza de que estávamos completos. Nossa escolha (de vida) fez sentido mais uma vez. Aplausos, risos, lágrimas e até incômodo (por que não?) estavam de volta. Um ano de começos, recomeços, encontros e reencontros. Um ano que precisávamos ter e tivemos.”

Mas é preciso notar que o reencontro com o público trouxe desafios. “A Sala Cecília Meireles voltou gradativamente a receber gente após o difícil período da pandemia”, diz João Guilherme Ripper, diretor da Sala. E esse processo só vai se tornar mais constante com programações regulares, que devolvam o senso de normalidade da vida musical. Foi o que a Sala fez, com uma agenda de 76 concertos. “Destaco a série com conjuntos de câmara da Filarmônica de Minas Gerais, resultado da parceria firmada entre a Sala e a orquestra; o Festival Mendelssohn, dedicado à integral das obras para cordas, a cargo do Quarteto Carlos Gomes; o Festival Violoncelo em Foco, com Antonio Meneses, Pavel Gomziakov e outros grandes solistas; os concertos da Série Orquestras”, diz Ripper, lembrando que o projeto #SalaDigital, criado durante a pandemia, transmitiu 33 apresentações pela internet e pela TV. 

Na Osesp, diz Marcelo Lopes, a volta do público ainda não ocorreu de forma plena. “Esse é o desafio que se apresenta para os próximos tempos. Dificuldades com o entorno da sala persistem e provavelmente representam o maior obstáculo para que possamos oferecer à cidade um equipamento com todo seu potencial de fruição”, explica. 

Sidnei Epelman, presidente da Tucca, também vê um público ainda retraído. “O último espetáculo do ano, da série Aprendiz de Maestro, que completou vinte anos, teve lotação esgotada. O público dos espetáculos infantis parece que voltou plenamente aos concertos, ao contrário do público dos espetáculos adultos – nesses, ainda há um retraimento por conta da pandemia”, diz.  

Ainda assim, o violinista e maestro Emmanuele Baldini, spalla da Osesp e desde 2022 regente da Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí, crê que a reconstrução já teve início. “Acredito que 2022 será lembrado para sempre como o ano do renascimento, já que mesmo as atividades culturais tendo sido retomadas no ano anterior, foi a partir de 2022 que tivemos a volta de programações planejadas e, nas grandes instituições, a volta das assinaturas”, afirma. 

Concerto da Osesp no Carnegie Hall (divulgação)
Concerto da Osesp no Carnegie Hall (divulgação)

ESTRELAS INTERNACIONAIS

Com considerável recuo da pandemia, apesar de picos em alguns momentos do ano (menos graves por causa da vacinação), um aspecto importante das temporadas brasileiras reviveu após sofrer abalo considerável em 2020 e 2021: a presença no país de artistas e grupos estrangeiros. 

“Em 2022, a Cultura Artística, após dois anos de interrupção da maior parte de nossos concertos presenciais, teve o tenor Piotr Beczala se apresentando pela primeira vez no Brasil, abrindo de forma exemplar a programação de 2022. Ao longo do ano tivemos também a oportunidade de assistir a excelentes pianistas, com perfis bem diferentes, incluindo Nikolai Lugansky, Khatia Buniatishvili, Vadym Kholodenko e Benjamin Grosvenor, além das memoráveis apresentações de Jakub Orlinski com o grupo Il Pomo d’Oro, de Joshua Bell à frente da Academy of Saint Martin in the Fields, de Guido Sant’Anna com The Deutsche Kammerphilharmonie Bremen, do Duo Siqueira Lima e do Quarteto Attacca”, diz Frederico Lohmann, superintendente da instituição.

“Tivemos a satisfação de retomar apresentações ao vivo após os dois anos de recesso provocados pela fase mais desafiadora da pandemia. Depois desse recolhimento, foi muito bom proporcionar prazer musical para o público, novamente reunido na sala de concerto”, afirma Sabine Lovatelli, presidente do Mozarteum Brasileiro, que trouxe ao Brasil grupos como o Quarteto Gershwin e o Trio Eggner.

As duas entidades seguiram apostando nas atividades pedagógicas, eixo fundamental de seus trabalhos. “O programa de bolsas de estudo Magda Tagliaferro da Cultura Artística seguiu crescendo e se aprimorando. Aliás, a conquista da 10ª edição do Concurso Internacional de Violino Fritz Kreisler por nosso bolsista Guido Sant’Anna foi motivo de grande orgulho para todos nós. Demos também continuidade a parcerias como aquela com o Estúdio Monteverdi de André Mehmari, em relação a nossa programação on-line, e a com o Departamento de Música da USP, em relação à 13ª edição do Encontro de Retórica”, lembra Lohmann. “Canto Mozarteum e Noite das Estrelas representam nosso bem-sucedido programa de bolsas de estudos, que em 2022 ainda custeou as despesas de três jovens músicos, um da Bahia e dois de São Paulo, para participarem da International Summer Academy do Collegium Musicum Schloss Pommersfelden, na Alemanha”, enumera Lovatelli.

A Dellarte também celebrou em 2022 a volta às apresentações da tradicional série O Globo/Dellarte Concertos Internacionais no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. “Tivemos como destaques o tenor Piotr Beczala, a Orchestre Royal Philharmonic de Liège com participação do pianista Nikolai Lugansky, um extraordinário recital do pianista Benjamin Grosvenor, a pianista sensação Khatia Buniatishvili, entre outros. Pela primeira vez, lançamos em São Paulo nossa Série Dellarte de música clássica, no moderno e novíssimo Teatro B32. A Série Concertos Internacionais São Paulo contou com cinco concertos, entre os quais destacaram-se o Trio Sitkovetsky e a Orquestra do Theatro São Pedro regida pelo maestro Ira Levin com a pianista Ksenia Kogan”, diz Myrian Dauelsberg, presidente da entidade.

A pianista Khatia Buniatishvili tocou no Theatro Muncipal do Rio de Janeiro e na Sala São Paulo (divulgação)
A pianista Khatia Buniatishvili tocou no Theatro Muncipal do Rio de Janeiro e na Sala São Paulo (divulgação)

FORMAÇÃO

A educação musical e a formação de músicos seguiram demonstrando vitalidade. “O ano 2022 marcou o início da gestão da Santa Marcelina Cultura no Projeto Guri do Interior, do Litoral e da Fundação Casa. Conquista importante para nossa instituição. Atualmente, estamos presentes em mais de 380 polos de ensino entre capital, interior e litoral e atendemos gratuitamente a mais de 60 mil crianças e adolescentes em todo o estado de São Paulo”, explica Paulo Zuben, diretor artístico e pedagógico da Santa Marcelina, que estendeu a preocupação com a formação também no trabalho do Theatro São Pedro de São Paulo: ao longo de 2022, foi realizado o primeiro Atelier de Ópera, em que seis jovens artistas – compositores e libretistas – tiveram aulas e oficinas com o objetivo de criar obras, que foram apresentadas em um espetáculo conjunto no mês de outubro.

Esse tipo de sinergia entre a difusão e a formação também se fez presente na criação, em 2022, da São Paulo Escola de Dança, em parceria com a São Paulo Companhia de Dança. “O nascimento da escola marca a vida da cidade por sua ação de formação e por ressignificar o uso de um patrimônio histórico, o terceiro andar do Complexo Júlio Prestes. As propostas incluem: difusão da dança, acesso ao mundo das artes e intercâmbios culturais e pedagógicos. Em 2022, 763 estudantes frequentaram a escola (cursos regulares, de extensão e/ou iniciação) – 50% das vagas são para pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, social e/ou relacional; e 20%, para pessoas negras, pardas ou indígenas. A escola e a companhia são programas com total sinergia. No Brasil e no mundo, seguimos conectados com pessoas que criam uma rede formidável de arte e comemoram a vida com as singularidades de cada um. Quando olho para 2022, vejo arte, gratidão, potência e futuro”, conta a diretora Inês Bogéa.

De volta à música, um dos projetos mais importantes da cultura brasileira, o Neojiba, celebrou em 2022 seus 15 anos. Em grande estilo. “Completamos 15 anos de existência festejando as imensas transformações promovidas por essa política pública do governo da Bahia na vida de milhares de famílias e demarcando, mais uma vez, o lugar singular que ocupa no panorama musical e educacional brasileiro”, diz o pianista Ricardo Castro, idealizador e diretor do projeto. “O grande destaque do ano foi a maior turnê internacional feita por uma orquestra brasileira em comemoração ao bicentenário de nossa Independência. Tivemos orgulho de lotar plateias em grandes salas de concerto de seis países europeus, como Concertgebouw, de Amsterdã; Philharmonie, de Paris; e Gulbenkian, em Lisboa. Nossa mensagem de que vale a pena investir na juventude foi recebida calorosamente.”

Concerto da Filarmônica de Minas Gerais na Casa da Música do Porto (divulgação)
Concerto da Filarmônica de Minas Gerais na Casa da Música do Porto (divulgação)

O sucesso internacional só faz sentido, no entanto, quando em diálogo com uma forte relação com a comunidade local, o que é a essência do trabalho do Neojiba. “De volta ao Brasil, comemoramos nosso aniversário com uma grande festa, que reuniu muitos dos 2.500 integrantes dos 13 núcleos do programa. Durante quatro dias, crianças e suas famílias puderam sentir aonde a dedicação e a busca pela excelência são capazes de nos levar. A multiplicação é o coração do programa”, conta Castro.

O Projeto Sinos, criado durante a pandemia, conseguiu, em 2022, ampliar ainda mais suas atividades, agora de forma presencial. “Além das encomendas de obras a compositores, realizamos caravanas em várias cidades, com diversos professores atendendo a alunos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná, em São Paulo, no Espírito Santo, no Rio Grande do Norte e no Ceará”, conta André Cardoso, que também participou em 2022 da estreia de duas obras, escrevendo o libreto para a ópera Aleijadinho, de Ernani Aguiar, e assinando a concepção do balé Macunaíma, de Ronaldo Miranda.

Iniciativas como as descritas até aqui são estruturantes. E a preocupação em estabelecer raízes, fazendo da atividade musical mais que a reunião de concertos e apresentações, também tem pautado o trabalho do Festival Artes Vertentes, que em 2022 foi finalista do Prêmio de Inovação da Classical:NEXT e realizou duas edições, uma em fevereiro e outra em novembro. A programação não apenas estabelece um diálogo entre as artes, mas faz desse diálogo instrumento de formação em um trabalho que dura todo o ano com crianças da região. 

“O ano 2022, no Brasil, foi marcado pela volta da música aos palcos graças à eficácia das vacinas. Justamente por acreditar na ciência, decidimos postergar a edição de 2021 do Festival Artes Vertentes para fevereiro de 2022. Ou seja, para mim, 2022 permanecerá o ano em que realizei duas edições do festival em menos de 12 meses! Essa comemoração é ainda maior com a doação de um terreno por parte da Prefeitura de Tiradentes para a construção de uma sede e uma escola livre de artes do Festival Artes Vertentes. Um reconhecimento diante do trabalho que fazemos há anos na região e, ao mesmo tempo, um grande desafio. O terreno me incita a alçar voos ainda mais altos”, explica Luiz Gustavo Carvalho, diretor do festival.

O tenor Piotr Beczala fez elogiadas apresentações em sua primeira vinda ao Brasil (divulgação)
O tenor Piotr Beczala fez elogiadas apresentações em sua primeira vinda ao Brasil (divulgação)

DIVERSIDADE

A pandemia trouxe alguns debates para a cena musical brasileira. Um deles tem a ver com a vida digital das orquestras. Nos últimos dois anos, as transmissões on-line foram uma necessidade para manter o contato com o público e, hoje, seguem um ativo importante na difusão do trabalho para além das salas de concerto. A Osesp transmitiu, semanalmente, ao menos um concerto de sua programação. A Sala Cecília Meireles realizou a transmissão de 33 concertos da temporada. “Retomamos as atividades presenciais, porém sem negligenciar o potencial dos canais digitais e a audiência que conquistamos. Perseguindo nosso propósito de democratizar o acesso, investimos nas transmissões on-line da temporada. Foram mais de duzentas transmissões ao vivo, com um público virtual beneficiado mais de 1,7 milhão de pessoas. Com o intuito de oferecer amplo acesso às atividades oferecidas pela Emesp Tom Jobim e pelo Projeto Guri, foram disponibilizadas também quase trezentas aulas abertas no YouTube”, diz Paulo Zuben. 

Além disso, outras questões ganharam urgência nos debates realizados nos últimos dois anos. Tratar de temas como preconceito, diversidade e inclusão tornou-se imperativo. O coletivo Ubuntu Brasileiro realizou uma montagem de Gianni Schicchi, de Puccini, a primeira produção de ópera no país com um elenco 100% negro, desde o maestro até o diretor cênico e a equipe criativa. 

“Foi uma realização que mudou o olhar e a mente de quase 1.500 adultos e crianças que puderam vê-la e que lançou uma nova abordagem ao se inspirar na cultura afro-brasileira”, afirma a mezzo soprano Mere Oliveira, que ressalta também o primeiro Concurso Brasileiro de Canto Li?rico Joaquina Maria da Conceic?a?o Lapa – Lapinha, para cantores pretos, pardos e indígenas, realizado pelo Conservatório de Tatuí. “Foram mais de 87 inscrições advindas de 18 diferentes estados brasileiros. Uma premiação digna, com vistas a implementar a carreira não somente dos premiados, mas de todos os inscritos. Mais que representatividade, pertencimento e protagonismo, foi uma busca da equidade na música de concerto e na ópera brasileira. Se nosso povo e? diverso, nossas ações devem refletir isso.”

Concerto da turnê do Neojiba pela Europa (divulgação)
Concerto da turnê do Neojiba pela Europa (divulgação)

Para Oliveira, há um longo caminho a ser trilhado. “2023 recebe a herança das conquistas de 2022 e o débito dos anos de descaso. É responsabilidade de cada gestor, diretor, maestro, produtor e dirigente de toda e qualquer instituição artística brasileira fazer um futuro melhor. Instituições não são cimento e tijolos; somos nós, e nós podemos transformar o mundo. Sempre e? a hora para fazer o que e? certo.”

“Em 2022, fiquei muito contente de ver diferentes projetos incluindo ações afirmativas para negros, pardos e indígenas, como o Concurso Joaquina Lapinha. Também vi o movimento na Sinfônica de Porto Alegre, que recebeu não só Mere Oliveira, mas também Sarah Higino. Fiquei muito feliz, pois vê-la no palco indica que não sou a única a lutar por um ideal. Também aplaudi a vinda de Luiz de Godoy, maestro preparadíssimo, assim como João Rocha, que regeu e dividiu sua música tão bonita com a Osusp e Hercules Gomes”, diz a maestra Alba Bomfim, professora de regência e práticas interpretativas da Universidade Federal do Piauí.

Para Bomfim, falar em diversidade significa também repensar o repertório e as formas de contato com diferentes públicos. Essa foi, aliás, uma preocupação da nova edição do Festival Sesc de Música de Câmara, organizado por Claudia Toni e Cristian Budu. “O festival foi o resultado de ousadias múltiplas, que incluíram muitas encomendas, muita gente jovem e um compromisso com a diversidade. Reunimos um elenco decidido a oferecer concertos inovadores na forma, de altíssima qualidade musical, olhando para públicos distintos e contando com parcerias que reforçaram o caráter amplo e agregador que sempre nos moveu”, diz Toni.

A especialista em políticas públicas para cultura também esteve envolvida em outro trabalho fundamental de 2022, ao lado de Camila Fresca, Flavia Toni, Cláudio Cruz e Eduardo Raele: o lançamento do livro/CD Toda semana: música e literatura na Semana de Arte Moderna, que celebrou o centenário desse evento definidor da cultura brasileira. A efeméride, por sinal, foi relembrada por diferentes instituições brasileiras e mostrou como é possível olhar para o passado e dialogar de maneira viva com o present e. Foi o que fez, por exemplo, o Coral Paulistano.

“Abrimos o ano com as comemorações do centenário da Semana, destacando não apenas os compositores que participaram do evento, mas também os poetas ligados ao movimento. Não poderíamos ter começado de outra forma, já que o próprio Coral Paulistano, um dos desdobramentos da Semana de Arte Moderna, tem hoje não só a responsabilidade, mas o desejo de impulsionar esse repertório. Partindo dessa vocação, estreamos em maio a ópera Café, de Felipe Senna, com libreto do idealizador do coro, Mário de Andrade. No momento em que celebramos os 100 anos do que representou o auge do modernismo – a busca pela personalidade da arte brasileira e a valorização do trabalhador –, foi importante e simbólico retratar, nessa grande ópera coral, a força e a coragem coletivas por meio das vozes do coro. A partir da reflexão sobre esses ideais, voltamos nossos olhares para obras e compositores que refletem a diversidade dos artistas e da música brasileira, introduzindo conscientemente e de maneira mais orgânica o nome de mulheres ao longo da temporada. Destacam-se, ainda, a Cantata de André Mehmari e o concerto Novas sonoridades, com os desafios de uma nova escrita coral”, diz Maíra Ferreira, regente do coral. 

O Trio Eggner foi um dos destaques da temporada do Mozarteum Brasileiro (REVISTA CONCERTO) (divulgação)
O Trio Eggner foi um dos destaques da temporada do Mozarteum Brasileiro (REVISTA CONCERTO) (divulgação)

ÓPERA

Na ópera, o ano foi especial, com o fortalecimento de teatros e temporadas e novas iniciativas, dentro e fora do palco. Um bom exemplo foi o Festival Amazonas de Ópera. 

“Não poderíamos ter mais alegrias, após dois anos sem óperas no palco do Teatro Amazonas, ao voltar com uma montagem de Peter Grimes e estrear o FAO com uma produção de Il tabarro do Festival de Ópera do Theatro da Paz, sendo a primeira grande ação do Corredor Lírico do Norte, convênio assinado em março de 2022, em Belém, pelos secretários de Cultura do Pará e do Amazonas”, conta Flávia Furtado, diretora-executiva do festival. “Estamos em um grande momento de reestruturação. Iniciamos, neste ano, cursos profissionalizantes na Central Técnica, fora do período do festival, seguindo o compromisso de que a cultura pode e deve ser fator de mudança de vida para a população amazonense. Também lançamos o Fundo do Festival Amazonas de Ópera em parceria com a Levisky Legado, projeto ambicioso para a sustentabilidade do FAO no longo prazo”, completa.

Fora do eixo Rio-São Paulo, outras boas notícias. A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre criou a primeira edição do Ópera Estúdios,  “divisor de águas para gerações de cantores líricos no Rio Grande do Sul”, nas palavras do diretor artístico do grupo, Evandro Matté. “O projeto proporcionou uma formação profissionalizante inteiramente gratuita aos participantes, que frequentaram oficinas com profissionais de alto gabarito ao longo de seis meses.” A Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul, grupo independente idealizado por cantores como a soprano Eiko Senda e o tenor Flavio Leite, também terminou o ano com uma boa notícia: a partir de 2023, terá como sede o Theatro São Pedro de Porto Alegre e poderá ampliar sua atuação. 

Em Ouro Preto, nasceu mais um festival de ópera. “A reativação da Casa da Ópera de Ouro Preto foi uma grande emoção deste ano, é e emblemático que possamos reativar através da ópera o teatro mais antigo do Brasil (dizem, até das Américas), datado de 1770). Com parcerias certeiras com o Palácio das Artes, a Appa – Arte e Cultura, o Coletivo das Artes e a Orquestra de Ouro Preto, mostramos que a música pode ser unida, e o que precisamos fazer é espalhar ópera e música pelo país, em meio à colaboração entre iniciativas e instituições”, diz Flávia Furtado.

A ópera A procura da flor, de André Mehmari, estreou no Festival de Música Erudita do Espírito Santo (divulgação)
A ópera A procura da flor, de André Mehmari, estreou no Festival de Música Erudita do Espírito Santo (divulgação)

As programações demonstraram vitalidade. No Municipal de São Paulo, depois de Aida, de Verdi, a temporada abordou dois títulos importantes do século XX. “O cavaleiro da rosa de Richard Strauss, uma das mais imponentes óperas de toda a história, ganhou uma remontagem que foi ainda melhor e mais bela que a versão de 2018, também com direção de Pablo Maritano e grande elenco. Terminamos nossa temporada de óperas com a produção de O amor das três laranjas, de Prokofiev, que deu a oportunidade a muitos cantores brasileiros fazerem sua estreia no Municipal”, diz o maestro Roberto Minczuk, regente titular da Orquestra Sinfônica Municipal. No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em ano de reestruturação, destacaram-se as produções de Don Giovanni, de Mozart, e O barbeiro de Sevilha, de Rossini. Em Tatuí, voltou ao palco, depois de mais de um século, a ópera A noite de São João, de Elias Álvares Lobo. E a Cia. Ópera São Paulo viajou pelo interior do estado com mais de vinte récitas de I pagliacci, de Leoncavallo.

Em sua produção de O cavaleiro da rosa, Maritano preocupou-se com questões contemporâneas, tal como se propôs fazer com Ariadne em Naxos, no Theatro São Pedro de São Paulo. Essa foi uma tônica importante das programações. Ainda no São Pedro, Antonio Araújo trouxe para nosso tempo Os Capuletos e os Montéquios, de Bellini, e Alexandre dal Farra deu continuidade ao projeto de óperas de Kurt Weill e Bertolt Brecht, que tem dirigido com Ira Levin, agora com A óperas dos três vinténs. No Theatro Municipal de São Paulo, Bia Lessa, em Aida, de Verdi, refletiu sobre questões de gênero e de aniquilação cultural. 

No universo lírico, a principal notícia talvez tenha sido a ênfase dada a novas obras. Em todo o país, foram 15 estreias, a maior parte fruto de encomendas. No Theatro Municipal de São Paulo, estrearam Navalha na carne, de Leonardo Martinelli; Homens de papel, de Elodie Bouny; e Café, de Felipe Senna – foi a primeira vez em sua história que o teatro encomendou óperas. No Theatro São Pedro, em uma temporada de onze títulos, subiram ao palco O canto do cisne, de Martinelli; O presidento, de Gabriel Xavier; Entre(cacos), de Maria Figueira; e A fome dos cães, de Willian Lentz. A Fundação Clóvis Salgado promoveu a estreia de Aleijadinho, de Ernani Aguiar. No Festival de Música Erudita do Espírito Santo, nasceu A procura da flor, de André Mehmari. Com a Orquestra Ouro Preto, subiu ao palco O auto da compadecida, de Tim Rescala. Na Bienal Ópera Atual, estrearam Larilá, de Arrigo Barnabé, Dadá, de Armando Lobo, e Protocolares, de Mário Ferraro. No Sesc de São Paulo, Jocy de Oliveira mostrou pela primeira vez seu novo trabalho, Realejo de vida e morte.

A ópera O amor das três laranjas, de Prokofiev, foi um dos destaques da temporada do Theatro Municipal de São Paulo (divulgação)
A ópera O amor das três laranjas, de Prokofiev, foi um dos destaques da temporada do Theatro Municipal de São Paulo (divulgação)

Nesse contexto, vale lembrar o I Concurso de Composição de Ópera do Fórum Brasileiro de Ópera, Dança e Música de concerto. O jovem compositor Piero Schlochauer foi o vencedor, e seu trabalho deverá ser encenado por algumas das instituições que compõem o fórum, entre as quais os teatros municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro, a Sala Cecília Meireles, a Fundação Clóvis Salgado e os festivais de ópera do Amazonas e do Theatro da Paz, em Belém.

“Em 2022, a ópera se afirmou como arte viva que se pensa em relação a seu tempo e seu espaço. Resiste e caminha com a história. Estamos acompanhando uma proliferação de óperas brasileiras construídas, estimuladas, montadas. 2023 promete também ser um ano de muitas novas produções artísticas, inéditas, fomentando esse movimento que começou e parece ganhar força”, diz a diretora Julianna Santos, que assinou a concepção cênica de Aleijadinho

“O campo da ópera testemunhou a continuidade de um importante movimento impulsionado pelo contexto pandêmico: o crescimento significativo de encomendas e estreias de obras inéditas”, afirma Livia Sabag, diretora de O canto do cisne e A procura da flor. Ela ressalta, no entanto, que essa aposta pode significar também outro olhar para o modo como óperas são produzidas. “Percebo que ainda há um grande descompasso entre as atuais práticas de trabalho dos teatros de ópera, instituições culturais, assim como de diversos agentes do campo e as demandas e os caminhos que uma obra nova exige, inspira e provoca. É verdade que avançamos bastante, mas sabemos que criações pedem outras práticas e relações, como tempos específicos de produção e processos mais colaborativos, para mencionar apenas alguns exemplos. Acredito que o caminho está no diálogo, já não sobre macromudanças, mas sobre micromovimentos e percepções, detalhes. Torço para que, em 2023, tornemos nossa escuta mais sensível, ampliando ainda mais nossa capacidade de dialogar”, completa. 

A ópera Aleijadinho, de Ernani Aguiar, foi apresentada ao ar livre em Ouro Preto e teve récitas no Palácio das Artes, em Belo Horizonte (divulgação)
A ópera Aleijadinho, de Ernani Aguiar, foi apresentada ao ar livre em Ouro Preto e teve récitas no Palácio das Artes, em Belo Horizonte (divulgação)

DEPOIMENTOS
Leia no Site CONCERTO, ao longo do mês de janeiro, todos os depoimentos de artistas, produtores e gestores que serviram de base para este texto.