Acervo CONCERTO: A vida de Camargo Guarnieri

por Redação CONCERTO 07/02/2020

Texto de Camila Fresca na edição de janeiro e fevereiro de 2013 da Revista CONCERTO

Conta-se que quando Camargo Guarnieri veio ao mundo, em Tietê, às margens do rio de mesmo nome, seu pai gritou: “Géssia, já nasceu o menino? Coloque aí o nome de Mozart!”. Nascido no dia 1º de fevereiro de 1907, Guarnieri era filho de Géssia e Miguel, imigrante italiano e músico amador louco por óperas, que batizou os filhos com nomes de célebres compositores: além dele, que se chamou Mozart, seus irmãos eram Belline, Rossine e Verdi. Apenas “Mozart” seguiu a carreira de músico. 

Aos 13 anos, Camargo Guarnieri dedicou ao professor Virgínio Dias sua primeira composição, Sonho de artista. O mestre detestou a obra, mas seu Miguel, entusiasmado com o talento do garoto, resolveu mudar-se com toda a família para São Paulo, para dar melhores oportunidades de aprimoramento musical para o filho. Na capital, o jovem contribuía no sustento da casa, ajudando o pai na barbearia e tocando piano em lojas de partituras, cinemas e casas noturnas. 

Guarnieri seguiu seu aprendizado até que, em 1928, conheceu um personagem fundamental em sua trajetória: o escritor Mário de Andrade. Camargo Guarnieri, então com 21 anos, mostrou a Mário suas composições Dança brasileira e Canção sertaneja. Ao ouvi-las, Mário teria dito: “Encontrei o que estava procurando” – ou seja, ele teria visto de imediato no compositor alguém capaz de por em prática seu acalentado projeto de criação de uma música erudita de caráter nacional. 

O escritor e o músico tornaram-se mais que amigos. Segundo Guarnieri, Mário era quase como outro pai, além de seu mentor intelectual – com Mário, Guarnieri adquiriu formação estética e cultural (o compositor completara apenas o segundo ano primário). Ele costumava dizer que havia frequentado a “Universidade Mário de Andrade”, em referência às muitas reuniões e leituras na casa do amigo. O compositor também teve aulas com Ernani Braga, Antonio de Sá Pereira e o regente italiano Lamberdo Baldi, outra figura fundamental em sua formação. Completaria ainda seus estudos em Paris com o compositor Charles Koechlin. 

Camargo Guarnieri foi regente do Coral Paulistano e da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. Embora nunca chegassem a conquistar alta popularidade, desde cedo suas obras foram saudadas pela crítica e premiadas, reconhecendo-se o talento e sólido métier do compositor. Sua extensa produção conta com uma ópera (Pedro Malazarte), seis sinfonias, concertos, música de câmara, obras corais, peças para piano (a coleção de 50 Ponteios é um dos pontos altos), para canto e piano (é considerado por alguns como o verdadeiro criador de nossa canção de câmara) etc. Suas composições lhe renderam projeção internacional, principalmente em Portugal e nos Estados Unidos, onde era admirado por nomes como Aaron Copland e Sergei Koussevitzky. “O mais impactante na música de Guarnieri é o apuro técnico: idioma harmônico utilizado ao máximo nos limites da harmonia; desenhos melódicos que sempre dão um jeito de evocar uma brasilidade ‘guarnieriana’, pessoal e intransferível; escrita idiomática para qualquer instrumento que seja objeto da composição, com seus recursos usados sempre no limite do factível, sem nunca cometer a indelicadeza de ultrapassá-lo. Nesse sentido, Guarnieri foi e será sempre (à medida que seu idioma já não tem mais vigência) insuperável”, observa o professor Celso Loureiro Chaves.

No campo pedagógico, Camargo Guarnieri foi, ao lado do músico alemão Hans-Joachim Koellreutter, o mais influente professor do século passado no Brasil, criando uma verdadeira escola de composição e orientando centenas de alunos, reconhecidos dentre os mais destacados nomes da música brasileira, como Marlos Nobre, Villani-Côrtes, Osvaldo Lacerda, Almeida Prado, Guerra-Peixe, Cláudio Santoro e Aylton Escobar. 

Foi tomando posição contra Koellreutter, aliás, que Guarnieri protagonizou um dos mais polêmicos episódios de nossa música. Publicada pela primeira vez no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida em diversos outros veículos impressos da época, a “Carta aberta aos músicos e críticos do Brasil” provocou enorme celeuma e intensos debates no meio musical. Neste documento, Guarnieri afirma assumir responsabilidades como compositor brasileiro e, por preocupar-se com a orientação da música dos jovens compositores, critica o dodecafonismo – “corrente formalista que leva à degenerescência do caráter nacional de nossa música”. A carta aberta provocou agitação incomum no meio musical brasileiro. Houve respostas – pela imprensa ou enviadas diretamente ao compositor – de várias partes do país. Foram propostos debates e programas de rádio. Músicos, críticos e leigos queriam dar opinião sobre aquele documento, muitos apoiando e outros tantos repudiando as ideias nele expostas. A verdade é que, àquela altura, Camargo Guarnieri, que já havia se tornado uma referência cultural importante, viu sua imagem bastante prejudicada pelo documento virulento e apaixonado que publicara – e que por décadas passou a ser usado para apontá-lo como músico reacionário e de pouco valor.

Em 1975, quando já era compositor e regente consagrado, Guarnieri tornou-se diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica da USP (Osusp), cargo que exerceria até o final da vida. Em 1990, já com idade avançada e abatido com o ostracismo a que fora relegado, recebeu um duro golpe com um acidente que deixou seu filho caçula em grave estado de saúde. Doente, foi levado ao hospital no dia 25 de dezembro de 1992. No dia seguinte, a Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, anunciava seu nome como vencedor do Prêmio Gabriela Mistral de “Maior compositor das Américas”. Em 10 de janeiro de 1993, o compositor falecia no Hospital Universitário da USP.

Este artista generoso (ensinava de graça a todos os alunos nos quais acreditava e que não podiam pagar), que dedicou sua vida à música, deixou um legado dos mais consistentes de toda a história da música brasileira. São mais de setecentas obras, das quais poucas estão hoje em circulação, mas que ainda assim fazem dele o compositor brasileiro mais executado no mundo depois de Villa-Lobos.

Mal sabia seu Miguel, naquele início de século em Tietê, que seu filho Mozart viria a ser tornar um dos maiores compositores que o Brasil já produziu.

Camargo Guarnieri [Reprodução]
Camargo Guarnieri [Reprodução]

LINHA DO TEMPO

1907
Nasce na cidade de Tietê, em São Paulo

1920
Aos 13 anos escreve Sonho de artista, sua primeira composição. Logo em seguida muda-se para São Paulo para continuar os estudos musicais

1928
Conhece Mário de Andrade, figura central em sua formação como compositor

1931
Sua primeira composição sinfônica, Curuçá, estreia sob regência de Villa-Lobos

1936
Torna-se regente do Coral Paulistano e, posteriormente, da Sinfônica Municipal de São Paulo.

1950
Publica a “Carta aberta aos músicos e críticos do Brasil”, condenando o dodecafonismo

1975
Torna-se diretor artístico e regente titular da recém-criada Orquestra Sinfônica da USP (Osusp)

1992
Recebe o Prêmio Gabriela Mistral de “Maior compositor das Américas” da Organização dos Estados Americanos (OEA)

1993
Falece em São Paulo no dia 10 de janeiro

Curtir

Comentários

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.

É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.