Ópera sobre processo migratório estreia no Rio de Janeiro

por Luciana Medeiros 09/04/2019

Duas mulheres em cena se perguntam: “o que haverá do lado de lá? Pasárgada? Xanadu? Shangri-lá?”. Uma pede passagem, a outra nega. São duas Gabrielas – Gabriela Luiz, bailarina, negra, capoeirista, da periferia carioca; e Gabriela Geluda, branca, de ascendência judaica e formação clássica. É uma ópera, mas o que dizem e cantam não prevalece sobre o movimento: no palco, o corpo tem tanto peso de expressão quanto as palavras e o som. O tema: deslocamento, busca, o desprender-se das raízes rumo a outra terra. 

Migrações, com libreto do dramaturgo, poeta e letrista de Geraldo Carneiro, estreia nesta quinta, dia 11, no Sesc Copacabana, e aborda em verso e diálogo o sofrimento do migrante. Com música de Beto Villares e do pernambucano Armando Lôbo executada ao vivo pelo trio formado por Cristiano Alves (clarinete), David Chew (cello) e Rodrigo Foti (vibrafone), é a segunda ópera de Carneiro e também sua segunda colaboração com a soprano Gabriela Geluda. Os dois se conheceram profissionalmente em 2017 na montagem da pocket opera Na boca do cão, último trabalho de Sérgio Roberto de Oliveira (1970-2017), no qual o libreto do poeta se baseava numa história pessoal de Geluda, sua experiência traumática com um cachorro na infância.

“Geraldo se entusiasmou com o gênero e me chamou para um novo projeto, já pensando nas migrações como tema”, conta Gabriela, ela própria neta de migrantes. “Na verdade, nos empolgamos com um caminho de reinvenção da ópera, algo que ficasse no limiar da performance. A música foi encomendada ao Beto, compositor com forte presença em trilhas para cinema, que nunca havia escrito para a voz lírica”.

Cena da ópera Migrações [Divulgação / Renato Mangolin]
Cena da ópera Migrações [Divulgação / Renato Mangolin]

A cantora tem como marca uma capacidade cênica de movimento pouco comum no mundo lírico. Com atuação exclusiva nas criações contemporâneas (“nunca cantei uma ópera tradicional, tirando umas poucas árias e um Orfeu de Monteverdi, quando estudava”), notadamente como protagonista dos trabalhos de Jocy de Oliveira, ela já cantou sobre uma ponte inclinada, presa por amarras; rodopiando em movimento giratório; tocando uma air guitar; e sacudindo os cabelos como metaleira.

“É mais fácil para mim cantar em movimento do que parada, acredite se quiser”, ela afirma. “Adoro o desafio físico, me disponibilizo muito para isso, me divirto; eu me sinto próxima, sim, do teatro, mais do que da música erudita tradicional”.

Foi a ideia de privilegiar teatro e movimento corporal na montagem de Migrações que inspirou a dupla de criadores a convocar para a direção a jovem e multipremiada Duda Maia. Bailarina que se tornou diretora de movimento e, em seguida, passou a assinar sucessos do palco, ela foi capturada pelo mesmo desafio de revisitar o gênero e pelo tema.

“Setenta milhões de refugiados no mundo de hoje!”, exclama. “Um universo que a maioria de nós só conhece como notícia. Mas falar da solidariedade e do amparo me mobilizou”.

Na linguagem poética que vai intercambiando o lugar do oprimido e do opressor na cena, Duda – aclamada principalmente pelo espetáculo Auê, do grupo Barca dos Corações Partidos, com canções inéditas e uma pegada inusitada na linha de ação cênica – aponta como referências para sua direção os documentários Human flow, do chinês Ai Weiwei, e Os capacetes brancos, do britânico Orlando von Einsiedel. “Em Migrações, falamos de territórios e fronteiras, e não somente internacionais: dou aulas na [Favela da] Maré, ali há regras de passagem e deslocamento”, define a diretora.

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