Antonio Meneses e Cristian Budu: bachianos brasileiros

Ninguém parece estar dando muita bola para a efeméride de 60 anos de falecimento de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Se orquestras e regentes preferem ignorar nosso maior compositor, quem tinha que se lembrar, felizmente, se lembrou: os bachianos brasileiros Antonio Meneses e Cristian Budu homenagearam a memória de Villa-Lobos com refinamento e sensibilidade no concerto de abertura da temporada da Sociedade de Cultura Artística, na última terça-feira, dia 19, na Sala São Paulo.

Sexagenário, Meneses caminha para ser reconhecido não apenas como o maior instrumentista brasileiro de cordas com arco que já houve no país, como nosso supremo camerista. Se sua sonoridade e fraseado já eram há tempos naturalmente requintados e de bom gosto, a longa convivência com o venerando pianista Menahem Pressler no Beaux Arts Trio elevou-o a pináculos de bendita sabedoria. Meneses já tocou com muitas grifes do piano brasileiro: Gilberto Tinetti, Nelson Freire, Arnaldo Cohen, Cristina Ortiz, Ricardo Castro... E agora, com generosidade, compartilha o saber bebido na fonte de Pressler com um artista da metade da sua idade: Cristian Budu.

Não poderia haver ouvidos mais receptivos para as lições do violoncelista do que os de Budu – não apenas um membro do seleto clube dos vencedores de concursos internacionais a que Meneses também pertence, como um camerista por gosto e vocação, que vem operando uma pequena revolução no meio musical de São Paulo com o projeto Pianosofia, no qual estimula talentosos integrantes de nossas orquestras a descansarem do sufocante dia-a-dia das sinfônicas exercitando suas sensibilidades no domínio da música de câmara.

Obviamente, assim como a relação Pressler-Meneses não era em via de mão única, tampouco a comunicação Meneses-Budu opera apenas em um sentido. O que se viu na Sala São Paulo foram dois musicistas maduros, dominando a difícil arte de ouvir com a mesma maestria com que se assenhoraram, há décadas, da arte de tocar.

Ensaio de Cristian Budu e Antonio Meneses para o concerto de abertura da temporada da Cultura Artística [Reprodução / Cultura Artística[
Ensaio de Cristian Budu e Antonio Meneses para o concerto de abertura da temporada da Cultura Artística [Reprodução / Cultura Artística]

Se Villa-Lobos não escondia sua reverência pelo legado de Johann Sebastian Bach (1685-1750), nada mais pertinente do que um recital que coloca a obra de ambos os mestres em diálogo. Meneses e Budu executaram as três sonatas de Bach para viola da gamba e cravo, alternadas com obras de Villa-Lobos.

Meneses, felizmente, vem compartilhando com regularidade com o público brasileiro sua intimidade com o universo de Johann Sebastian e seus filhos, refletida nas escolhas judiciosas de vibrato, articulação e ornamentação. Das três sonatas, se tivesse que guardar um trecho para levar na memória para o resto da vida, seria o pungente Adagio da Sonata nº 3 em sol menor BWV 1029, que teve a medida certa de lirismo, sem descambar para o excesso de sentimentalidade, nem pecar por frieza, na qual Antonio foi acompanhado por um Budu que parece acarinhar e valorizar cada mordente bachiano com o mesmo gosto com que se atira às mais desbragadas loucuras do repertório romântico.

A cada Bach executado com luvas de pelica, sucedeu-se um Villa-Lobos muscular e arrebatado. Não custa lembrar que o violoncelo era o instrumento que garantia o ganha-pão do compositor na juventude e para o qual ele deixou uma obra de fôlego: a Sonata nº 2 (o catálogo fala de uma primeira sonata, mas essa, se é que foi composta, jamais teve sua partitura localizada), estreada em 1917, e incluída nos concertos da Semana de Arte Moderna de 1922. Afrancesada e visionária, a obra constitui não apenas considerável desafio técnico (como os 51 compassos da longa introdução pianística), mas musical: decifrar o discurso musical prolífico e elusivo de Villa-Lobos e traduzi-lo com a merecida coerência. Desafios de que Budu e Meneses se desincumbiram com brio e convicção. Após o concerto, ambos falavam em gravar a obra, o que, pelo que se ouviu ao vivo, promete ser um registro de referência.

Além da Sonata, vieram talvez as duas melodias mais “pops” de Villa-Lobos: a ária das Bachianas brasileiras nº 5 e O trenzinho do caipira. Comparada com a versão original (clique aqui para ouvir), a ária soa aqui algo curiosa, pois cabe ao piano executar o acompanhamento originalmente tocado pelo conjunto de violoncelos, enquanto o violoncelo encarna a voz de soprano – e Meneses, mestre de coloridos, conseguiu simular até o efeito bocca chiusa em seu instrumento. Já no Trenzinho, composto às pressas em uma viagem ferroviária entre Bauru e Araraquara, os intérpretes preferiram adotar a versão de autoria de Ricardo Castro, que muito imaginativamente incorpora vários dos efeitos da partitura orquestral (clique aqui para ver). Dá trabalho para os intérpretes, mas é uma delícia de ouvir. No bis, mais uma união de inteligência e bom gosto: Meneses e Budu interpretaram O cisne, de Saint-Saëns, e sua cria brasileira, a Dança do cisne negro, de Villa-Lobos.

Felizmente, nesse ano, ainda que separados, ouviremos mais de Antonio Meneses e Cristian Budu. O violoncelista pernambucano presta tributo a seu conterrâneo Marlos Nobre, executando o seu Concerto para violoncelo, encomenda conjunta da Osesp, Filarmônica de Minas Gerais, Filarmônica de Goiás e Orquestra Petrobras Sinfônica, para os 80 anos de nascimento do compositor. Já Budu, além de se apresentar no badaladíssimo Festival de Verbier, e de continuar sua parceria com o violinista Renaud Capuçon, toca, com a Osesp, o Concerto para piano de Schumann – que ele grava com a mesma orquestra.

[Divulgação]
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