“Barbeiro de Sevilha” no Municipal

por Jorge Coli 23/02/2019

Antes de mais nada, um protesto: voltaram a deixar aquelas abomináveis caixas de som na frente da frisa que encima o palco do Municipal. O esplêndido Nascimento de Vênus, escultura de Alfredo Sassi, é uma glória para o teatro. Pendurar as caixas de som que parecem destinadas a show de rock bem em frente é mais ou menos como deixar que instalem um outdoor tapando o Monumento às bandeiras, de Brecheret. Deveríamos supor que o Instituto Odeon, gestor do teatro e especialista em museus, pudesse ter um pouco de sensibilidade para as artes plásticas. Mas no nosso país a barbárie se infiltra em todos os lugares: é natural que ela esteja também presente nos gestores culturais.

Pude assistir a duas récitas de O barbeiro de Sevilha, dias 16 e 20 de fevereiro. Ambas tinham em comum a montagem. Cenários muito feios, figurinos grotescos. O diretor de cena, Cleber Papa, caiu em uma esparrela comum nos nossos dias: a de que comicidade em ópera significa palhaçada. O resultado é humor de teatro infantil, que sublinha o grotesco. Ora, os personagens d’O barbeiro são engraçados, mas são profundamente humanos e essa humanidade deve ser respeitada. 

A feiura e o grotesco sobressaíram na récita do dia 16. A regência não dava vida à obra. Deixo claro imediatamente: Roberto Minczuk é um grande maestro, um dos maiores que nosso país possui. Sua leitura de Rossini foi de grande beleza, cuidada, precisa. Mas faltou nela a vivacidade, o ânimo: numa palavra, faltou o espirito, indispensável para que essa música se imponha. Mesmo os maiores intérpretes têm afinidades maiores ou menores com obras diferentes.

Assinalo que a edição, filológica, escolhida para o espetáculo, não apenas restaurou a cena final do tenor, com a ária “Cessa di più resistere”, como os recitativos completos, que estruturam muito melhor a trama da ópera.

Cena de “O barbeiro de Sevilha” [divulgação / Fabiana Stig]
Cena de O barbeiro de Sevilha [divulgação / Fabiana Stig]

Michel de Souza é um jovem barítono que começa uma carreira internacional. Timbre muito belo, aveludado e brilhante ao mesmo tempo. Elegante no fraseado, desembaraçado, fez um Fígaro de excelente qualidade. 

Luísa Francesconi interpretou Rosina. Seria injusto insistir aqui sobre os problemas de agudos e afinação que ela apresentou: era evidente que não estava num de seus melhores momentos. Essa bela cantora já nos ofereceu tantas interpretações de alta categoria para que possamos pôr sua prestação daquele sábado na conta de uma noite infeliz.

Jack Swanson, tenor americano de 36 anos, revelou belo timbre homogêneo, seguro, vocalizes ágeis, agudos fáceis: um ótimo Almaviva.

Sávio Sperandio, formidável cantor como sempre, encampou um Bartolo com grande presença, e foi um prazer ouvir Carlos Eduardo Marcos no bufo Don Basilio.

A récita da quarta-feira mostrou-se bem diferente. Mesmo os cenários e figurinos pareciam melhorar. É que, no pódio, estava Gabriel Rhein-Schirato. Trata-se de um jovem maestro, cuja carreira ainda nada tem do prestígio nacional e internacional, perfeitamente merecido, de Minczuk. Mas Rhein-Schirato tem a prática do pianista acompanhador de cantores e a compreensão das exigências vocais. Rege ópera com a plasticidade que parece surgir de uma pulsão natural. Mais ainda, revelou verdadeira personalidade musical. 

Isso manifestou-se desde a abertura, com fraseados sentidos, românticos, por assim dizer, que pareciam antecipar, lá longe, o Guilherme Tell, composto por Rossini 13 anos depois. Surgiu então a magia do espírito, da vivacidade que não perde a elegância, o perfeito sentido de dar conforto aos cantores sem esquecer o rigor. Rhein-Schirato rege com belos gestos precisos, vibrantes, e sua felicidade em dirigir essa música genial era tão evidente quanto contagiante.

Seja por causa do maestro, seja porque os cantores possuíam maior afinidade entre si, a fusão cúmplice entre eles criou uma dinâmica que acentuou a fluência. Era evidente que estavam à vontade, que se divertiam.

Fígaro foi interpretado por David Marcondes, poderoso barítono, com a voz bem assentada nos graves e médios, permitindo boa base para os agudos. Torço para ouvi-lo em algum papel verdiano. Além disso, sua presença cênica ágil e dominante triunfou.

Seu vozeirão contrastou com a voz de Almaviva, feita de pura e luminosa poesia, maravilhosa de matizes. Anibal Mancini é um cantor de musicalidade superior graças à sua voz dúctil e perfeitamente dominada. As duas serenatas no início do primeiro ato imediatamente impuseram a nobreza e o amor verdadeiro do conde. Mancini e Marcondes: uma dupla impressionante.

Luciana Bueno demonstrou homogeneidade do timbre em todos os registros, agudos seguros e projeção impecável. Criou uma excelente Rosina. O trio se completou de modo excepcional.

Os velhos comparsas Bartolo e Basilio encontraram em Saulo Javan e Matheus França dois poderosos intérpretes, irresistíveis de graça.

Assinalo as duas Bertas, Débora Dibi e Denise Yamaoka. que tiveram sucesso condigno: 

Seria injusto dizer que o primeiro Barbiere foi assai noioso – foi mais do que isso. Mas o segundo, sem sombra de dúvida foi di qualità.

 

Veja abaixo fotos da produção de O barbeiro de Sevilha [divulgação / Fabiana Stig]

“O barbeiro de Sevilha” [divulgação / Fabiana Stig]
Anibal Mancini (Almaviva) e Davi Marcondes (Figaro)
“O barbeiro de Sevilha” [divulgação / Fabiana Stig]
Cena de “O barbeiro de Sevilha” 
“O barbeiro de Sevilha” [divulgação / Fabiana Stig]
Matheus França (Basilio) e Luciana Bueno (Rosina)