Enfim, uma sede para a Ospa!

por Nelson Rubens Kunze 26/03/2018

Demorou quase 68 anos! Mas, finalmente, no sábado dia 24 de março, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – uma das mais antigas e tradicionais orquestras do país – inaugurou a Casa da Música, a primeira sede própria de sua existência. O fato histórico – ainda mais significativo considerando-se a péssima conjuntura econômica que o país atravessa – deve-se a uma articulação inédita (e inteligente!) entre a Ospa, o governo do estado, a Fundação Pablo Komlós, o Ministério Público, a sociedade civil e patrocinadores, liderada pelo secretário da Cultura Victor Hugo e o maestro Evandro Matté, diretor artístico do conjunto.

Ospa sob regência de Evandro Matté na inauguração da Casa da Música [Divulgação Ospa / Maí Yandara]
Ospa sob regência de Evandro Matté na inauguração da Casa da Música [Divulgação Ospa / Maí Yandara]

Esta mesma gestão do governador José Ivo Sartori (MDB), além da concessão por 25 anos do espaço físico da nova sala no Centro Administrativo Fernando Ferrari (sede do executivo do governo estadual), ainda concedeu à Ospa o uso do “Palacinho”, casarão histórico que abrigará a Escola de Música da Ospa (há anos a Ospa mantém a principal escola pública de música da cidade) e de seus quadros administrativos. E como uma boa notícia não vem só, a orquestra ainda viveu a feliz coincidência de ver resolvido o imbróglio de seu piano Steinway, retido em processos judiciais há quase 20 anos (!). Assim, o concerto inaugural da nova Casa da Música ainda contou com um novo piano tocado por ninguém menos do que o premiadíssimo Cristian Budu (que elogiou o instrumento com entusiasmo).

Originalmente planejado como auditório, o espaço da nova Casa da Música estava ocioso e servia de depósito. Por ter um pé direito relativamente baixo, mais de 200 painéis acústicos de inclinação regulável foram instalados no teto para auxiliar na resposta sonora. Além da sala de concertos com 1.100 lugares, o espaço dispõe de um saguão, salas de estudo, camarins e um café. Em uma segunda etapa, uma área adicional de 900 m2 será incorporada ao complexo, que então abrigará ainda uma sala de música de câmara para 120 espectadores.

No concerto de sábado, após os discursos das autoridades e do descerramento da placa comemorativa, a orquestra tocou o Hino Nacional e o Hino do Rio Grande do Sul. Já o programa que se seguiu contemplou a estreia de uma abertura sinfônica escrita especialmente para a ocasião pelo compositor gaúcho Arthur Barbosa, também violinista da orquestra, a Raphsody in blue, de Gershwin (com Budu ao piano), e a Sinfonia nº 9 Do novo mundo, de Dvorák. A regência foi do maestro e diretor artístico Evandro Matté, que, com gestual sóbrio e claro, conduziu o programa com segurança e senso estilístico. (Evandro Matté, cuja visão e capacidade de trabalho foram determinantes para a concretização da Casa da Música, é requisitado maestro no Rio Grande do Sul: além do posto na Ospa, Matté é diretor artístico da Orquestra Unisinos e do Festival Internacional de Música Sesc de Pelotas.)

E a resposta acústica da sala foi muito satisfatória e é adequada para a música sinfônica (e certamente ainda melhorará com a afinação das placas). Se na primeira parte do programa, em algumas passagens tutti, a orquestra soou um pouco massuda, no Dvorák sutilezas sonoras e planos tímbricos já ganharam melhor definição. A sala tem um ótimo potencial e não há dúvidas de que ela servirá de veículo para levar a Ospa a um novo patamar de qualidade artística.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Porto Alegre e assistiu à inauguração da Sala da Música a convite da Ospa - Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.]

Edição em 27/03/2018, 10h: O nome correto da sede da Ospa é Casa da Música (e não Sala da Música, como anteriormente escrito).