Sinfônica Brasileira: a luta de uma orquestra para sobreviver

por Luciana Medeiros 25/04/2019

Em 2020, a Orquestra Sinfônica Brasileira completa 80 anos de existência.  Nesse início de 2019, no entanto, vem navegando entre névoas, depois de atravessar, nos últimos três anos, tempestades que quase extinguiram o grupo sinfônico – e as notícias mais recentes dão conta das saídas do diretor artístico Pablo Castellar, na orquestra desde 2011, e do regente Lee Mills, que entrou como assistente de Roberto Minczuk em 2014 e vinha atuando seguidamente. Além disso, foram suspensos os concertos na Sala Cecília Meireles, palco em que a OSB mais atuou em 2018, já que a nova administração da casa não oficializou a parceria. 

Em 25 de abril, a temporada que Castellar deixou desenhada ainda não foi anunciada. “Muitas parcerias com embaixadas e nomes de solistas e maestros já foram confirmados, mas por conta dessas mudanças e incertezas ainda não divulgamos”, diz a diretora executiva Ana Flávia Leite, que passa a acumular a direção artística assessorada por uma comissão de seis músicos. “Temos datas fechadas no Theatro Municipal e no Teatro Riachuelo”. 

A saída de Lee Mills não é surpresa: o maestro vai assumir, alguns meses antes do previsto, o posto de regente associado na Seattle Symphony, nos Estados Unidos.  No período final de trabalho, a orquestra e o regente estiveram em pé de guerra. “Acho normal esse desgaste”, ameniza Ana Flávia. “Foram muito concertos, muita exposição, tende-se a ter mais conflito. Penso, aliás, que a ideia de haver um maestro titular por muito tempo precisa ser renovada”. Já a despedida de Castellar foi, segundo ela, “inesperada”.

A OSB, uma das mais tradicionais orquestras do país, é também uma das poucas instituições privadas do gênero, já que a maioria esmagadora dos grupos sinfônicos brasileiros é ligada a instâncias governamentais. O mundo cultural do Rio de Janeiro, em especial, acompanhou de perto o drama dos músicos e funcionários da orquestra durante o apagão. A crise era resultado, em boa parte, de má gestão, agravada por circunstâncias penosas, como o encerramento dos patrocínios de continuidade da Prefeitura do Rio e do BNDES. 

Orquestra Sinfônica Brasileira [Divulgação]
Orquestra Sinfônica Brasileira [Divulgação]

Em 2016, as borrascas culminaram com o cancelamento de temporada e nove meses sem que a orquestra pagasse salários. Quase um naufrágio. Mas um esforço de reestruturação e de captação trouxe algum alívio. Desde setembro de 2017, os músicos voltaram a receber seus vencimentos praticamente em dia – ainda houve dois “soluços”, causados por bloqueio das contas da Fundação OSB. Os meses em que não houve pagamento estão sendo compensados aos poucos, em acordo que já foi revisto e alongado para ainda cerca de 18 meses. Mas ainda restam dívidas com outros fornecedores.

“Estamos contando com uma captação em torno de R$ 9,5 milhões, de patrocinadores que renovaram conosco, Bradesco, Brookfield, Eneva e NTS, e da Eletrobrás, que entrou”, lista Ana Flávia, que assumiu o cargo em janeiro de 2017. “A Prefeitura do Rio definitivamente não apoia a orquestra, dentro da falta de política pública para a cultura da cidade. Se não houvesse a Rouanet, não existiríamos mais”.

Entre 2009 e 2014, na gestão de Eduardo Paes, a OSB recebeu uma dotação de cerca de R$ 6 milhões anuais. Enfrentou problemas estruturais e logísticos na ocupação da Cidade das Artes, espaço que seria, em tese, a sede da orquestra – a Prefeitura cobrou aluguel de R$ 600 mil por ano pelo uso das salas de ensaio.  A questão ainda está em aberto – a OSB, aliás, continua ensaiando no complexo da Barra da Tijuca.

Com o efetivo reduzido – de cerca de 100 figuras, em 2016, hoje são 73 os músicos contratados –, a orquestra pretende atravessar 2019 construindo como for possível a temporada na linha mestra definida para o ano, “A música que gira o mundo”. O projeto educativo Conexões Musicais será realizado esse ano em São Paulo. E o grupo torce para que 2020 seja melhor. “Queremos ter um ano festivo, comemorar efemérides como os 60 anos de inauguração de Brasília, onde a OSB tocou sob a batuta de Eleazar de Carvalho”, projeta a diretora executiva. “Nossa luta hoje é pela própria existência da orquestra, para fazer permanecer um produto essencial da cultura”.

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