Sob o signo do medo

por João Marcos Coelho 30/12/2018

Em 1928, nascia o ainda atual Ensaio sobre Música Brasileira, de Mário de Andrade. A professora titular do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros) da USP Flávia Camargo Toni realizou um trabalho fundamental de organização e notas do que chama de uma “edição fidedigna”, a ser proximamente publicada pela Edusp com apoio da Fapesp (escrevi acerca disso na matéria publicada na edição de janeiro-fevereiro da Revista CONCERTO.) Aqui, Flávia fala sobre como Mário de Andrade pensava o Ensaio em 1943, a partir da linda e provocativa dedicatória de um exemplar a Antonio Candido, que por sua vez o doou ao bibliófilo José Mindlin.

“Em geral nós também não nos damos conta de que a fase elétrica da fonografia estava apenas engatinhando em 1926, ninguém poderia imaginar que tanta música popular seria depois gravada em estúdio, embora a fonografia já fosse usada em trabalhos de campo, como ele acompanhava através de artigos de revistas que ele assinava. No entanto, em 1928, o foco de Mário de Andrade é sobretudo a renovação da linguagem e isto ele reconhece em dois momentos distintos: na conferência sobre os 20 anos do Modernismo, em 1942, e numa dedicatória que escreve, no ano seguinte, para Antonio Candido de Mello e Souza. Esta dedicatória ficou preservada dentro de um exemplar do Ensaio que o professor Antonio Candido deu de presente para o bibliófilo José Mindlin e começou a ser conhecida a partir da edição de Para a Tão Falada Biblioteca José e Guita Mindlin: Dedicatórias, de 2013. Em janeiro de 1943 Mário de Andrade conta para Antonio Candido que achava “repulsiva” a linguagem empregada no Ensaio, classificado por ele como um “livro de técnica”, que tinha abusado intencionalmente e que apesar de desgostar tanto da obra, não o repudiava. E explica de forma muito bonita, a meu ver, como situá-la em sua trajetória”.

A seguir, a dedicatória para Antonio Candido, na íntegra:

Um tiro na noite, provocado pelo medo

“Aqui lhe mando o resto das minhas ‘obras completas’! Tenha paciência. E lhe mando mais a coleção da Revista Nova de presente. Fiquei com vontade, principalmente olhando este livro, de comentar certas coisas, depois desanimei. Está claro ou que lhe fique claro pelo menos que a exacerbação quase desesperada de linguagem que este livro manifesta e que hoje me é simplesmente repulsiva, foi muito convincentemente escolhida para este livro de técnica. Nos outros havia sempre o valor estético da arte que, se permitia o claro-escuro e o emprego salpicado da mancha forte, me impedia a constância do ‘irritante’, do ‘ferinte’ de que abusei aqui. Abusei e me ‘esbrodolei’ à larga, atingindo o carnavalesco por excesso de sabor. Coisa externa, voluntária. Não pense porem que por me desgostar terrivelmente com a linguagem deste livro, a ponto de me ser impossível ler e aguentar um só capítulo dele hoje, eu repudie ele.  Não repudio coisíssima nenhuma. Porem, hoje, eu sei que este livro foi uma consequência apressada de... sim: de medo! Mesmo tecnicamente, pois se as ideias gerais eu ainda imagino boas e justas, sei que estão mal baseadas. Mas foi medo tudo. Você sabe: dizem que a sentinela de-noite, guardando, às vezes é tomada de medo e dá um tiro. Foi o que eu fiz. Os meus problemas de linguagem e de técnica musical brasileira me assustaram tanto que dei o tiro. Este tiro. Que os problemas me assustassem, nada mais justo. Que me assombrassem, a consequência era lógica. Mas o medo deve ser uma fragilidade. Pelo menos o medo que deu um tiro improvável na noite. É o que me desagrada.

Mario de Andrade
S. Paulo, 17/I/43”