Atalla Ayan, de Belém ao mundo inteiro em uma década

por Luciana Medeiros 23/07/2019

Numa noite de agosto de 2008, cruzei uns poucos quarteirões do Leblon para encontrar um amigo de passagem na cidade, o agente Bruce Zemsky. Nascido no Brooklyn, em Nova York, era àquela altura um dos nomes de ponta no management dos artistas de ópera nos Estados Unidos – e um apaixonado pelo Brasil, a ponto de aprender falar o português. Na porta do restaurante japonês, Bruce esperava ao lado de um jovem sorridente. “Quero te apresentar um futuro astro”, ele disse, empolgado. E contou que estava ali para aproveitar uma chance fenomenal, a de colocar seu novo agenciado numa audição para o diretor da escola de ópera do Teatro Comunale de Bolonha. “Imagine só, o Alberto Triola está de férias no Rio, veio passar o aniversário dele aqui a conselho do astrólogo”, continuou Bruce. “E concordou em fazer essa audição. Nas primeiras frases da ária Che gélida manina, ele já aceitou o aluno.”  

O jovem sorria, com ar sonhador. Era o tenor Atalla Ayan, que acaba de passar pelo Rio de Janeiro, vivendo o papel-título na ópera Fausto de Gounod, montagem que celebra os 110 anos do Theatro Municipal. Onze anos depois daquele sushi na noite fresca do Rio, ele é uma estrela em firme ascensão nos palcos europeus, com direito a protagonizar montagens de La traviata no Metropolitan de Nova York e La bohème na Ópera de Paris. Continua sorridente e às vezes parece não acreditar na realização de um sonho de menino, nutrido na paixão do tio que o criou, Ibrahim Ayan, pela música. Zemsky, um talentosíssimo agente – responsável pela carreira internacional de Paulo Szot –, faleceu há dois anos, mas teve tempo de orientar Ayan, principalmente ao aplicar um freio nos insistentes convites para que iniciasse precocemente uma carreira. Em 2017, Zemsky falou, na ocasião da estreia no Metropolitan, da alegria de ver seu pupilo em papéis principais nos palcos mais importantes do mundo: “Ele é um tenor lírico clássico, de excelentes agudos, e vem crescendo muito como ator. Mas precisou passar por escola, formação, e aprender muito do cotidiano da carreira”. 

Atalla Ayan em cena de 'Fausto', de Gounod, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Divulgação/Ana Clara Miranda]
Atalla Ayan em cena de 'Fausto', de Gounod, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Divulgação/Ana Clara Miranda]

O Fausto que se viu no Rio está, definitivamente, a anos luz do Romeu e Julieta cantado pelo tenor em 2010 no mesmo palco. Fazendo o par com a Julieta da coreana Sumi Jo na outra ópera famosa de Gounod, Ayan engatinhava no quesito interpretação, prejudicado ainda por um figurino tremendamente ingrato, a la Peter Pan. Mas o sorriso continuava cheio de calor e esperança e a musicalidade se expandia. Logo em seguida, já cursando a escola do Metropolitan em Nova York, acabou substituindo um tenor doente numa apresentação no Central Park – e eu estava lá, por acaso, ao lado de João Luiz Sampaio. Comparado nessa ocasião pelo crítico do New York Times Allan Kozinn a um jovem Plácido Domingo, viu as portas da carreira se escancararem. Desde 2011, integra o elenco da Ópera de Stuttgart, na Alemanha. 

Colocando de lado por um momento os dons vocais, é tentador pensar a partir da trajetória de Atalla: como nasce uma estrela da ópera? Um pouco de sorte, muita dedicação e uma estratégia certeira e paciente de crescimento. Os três fatores se combinaram ao longo de uma década para estabelecer a presença do tenor na primeira linha do mundo lírico. E, naturalmente, a tal star quality, difícil de definir e facílima de perceber, que desabrochou – isso ficou claro para os cariocas que o viram em Fausto.

Em setembro e outubro de 2019, Atalla estará na Ópera de Paris como Alfredo Germont de La traviata, papel que repete em Dresden em novembro e que retoma no Met de Nova York na temporada 2020-21. Em dezembro desse ano, canta o Duque de Mântua de Rigoletto em Oslo.  Muito Verdi? “Sim, e continuo aprendendo”, diz Atalla, em seu camarim no Rio. “Mas o que eu gostaria de cantar? Werther, amo, sonho com isso”. Pelo andar da carruagem, os sonhos do tenor paraense se realizarão sem muita demora.

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