Férteis longevidades 

por João Marcos Coelho 23/05/2019

A expectativa de vida média no século XVIII de Mozart era de 33,5 anos. Mozart, portanto, não “morreu cedo”, mas até ultrapassou a média – chegou aos 35 anos. Beethoven, então, foi um recordista, com seus 56 anos. Hoje, no século XXI, segundo o IBGE, a expectativa de vida no Brasil é de 80 anos para mulheres e 73 anos para homens.  Mas há países em que os índices sobem muito: na Espanha é de 82,8 anos; e na Coreia do Sul, chega aos 90 anos.

É aí que quero chegar. Até bem poucas décadas atrás, quando um músico chegava aos 80 anos ainda capaz de exercer seu talento com dignidade, era saudado como raridade. Uma notória exceção da década de 1980 foi Magda Tagliaferro, que morreu aos 93 anos em 1986 em plena atividade.

Bem, hoje em dia há vários grandes músicos em atividade em sua nona década de vida. O exemplo internacional mais notável é, sem dúvida, o pianista Menahem Pressler, hoje com 95 anos. Ele nasceu numa família judia em Magdeburg, a 90 quilômetros de Berlim em 1923. E já estudava piano quando assistiu aos saques e incêndios nas lojas e casas judias na tristemente célebre Noite dos Cristais de 9 de novembro de 1938, quando hordas nazistas cometeram estas atrocidades sem que nenhuma autoridade do Reich tomasse qualquer atitude. Pois Pressler gravou em 2018, aos 94 anos, um CD para o prestigiado selo Deutsche Grammophon intitulado “Clair de Lune”, com peças menos desafiadoras do ponto de vista técnico de Debussy, Fauré e Ravel.

A pianista Maria Josephina Mignone com o compositor Francisco Mignone [Reprodução/Acervo Pessoal]
A pianista Maria Josephina Mignone com o compositor Francisco Mignone [Reprodução/Acervo Pessoal]

Pensei em tudo isso semanas atrás quando conversei com a pianista Maria Josephina Mignone, por telefone, e fiquei surpreso quando ela deixou claro que se lembrava muito bem de uma entrevista que fiz com o casal Mignone, em São Paulo, na década de 1980, para a Folha de S. Paulo. Do alto de seus 96 anos, ela já disponibilizou nas redes sociais e fará em junho no Rio e em julho próximo em São Paulo o lançamento de um álbum duplo físico intitulado “Chico Bororó (um jovem Mignone)”. No primeiro CD, ela interpreta 16 das mais de 120 peças que Francisco Mignone assinou com seu pseudônimo popular nas décadas de 1920 e 30. E, no segundo CD, acompanha a soprano Neti Szpilman em divertidíssimas 11 cançonetas bem populares, em boa parte associadas ao universo da autêntica música sertaneja. Várias foram gravadas por Francisco Alves, como Mandinga doce e Miami.

Josephina (“Jô”, para os mais chegados), segunda esposa de Mignone, encontrou em sua filha Anete Rubin Mignone a parceira ideal. Advogada, Anete especializou-se em direito autoral e mais recente fez um rápido curso de gravação. Montou um estúdio na sala da casa da pianista, nas Laranjeiras, no Rio de Janeiro. E lá mesmo são registradas suas performances. Josephina tem planos de gravar um CD por ano, daqui para a frente. E também é importante lembrar o trabalho fundamental de Josephina na Coleção Mignone, resgatando registros históricos e até produzindo novas gravações.

De seu lado, Pressler pretendia juntar-se, aos 95 anos, com outro pianista nonagenário, Paul Badura-Skoda, de 91, para um recital conjunto em Viena este mês – aventura que acabou não acontecendo porque Pressler cancelou sua participação. Assim, o “caçula” Badura-Skoda vai se apresentar sozinho. Mas a dupla promete novas aventuras musicais em outra ocasião.  Afinal, se dos 90 em diante pianista algum mantém a qualidade de toque, por conta mesmo de obstáculos físicos, permanece neles a chama e sensibilidade dos velhos tempos. 

P.S.: um dos concertos mais memoráveis que tive o privilégio de compartilhar, na plateia da Sala São Paulo, sem dúvida foi o do maestro polonês Stanislaw Skrowaczewski, de 91 anos, na noite de 30 de outubro de 2014, comandando a Osesp numa intensa e fogosa interpretação da Sinfonia nº 4, Romântica, de Bruckner.

Consulte no site da Loja CLÁSSICOS a discografia da pianista Maria Josephina Mignone

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