Formação ausente (Parte 1)

por Leonardo Martinelli 16/08/2018

A história da educação musical é tão rica, interessante e reveladora quanto a própria história da música. Afinal, se em sua superfície atual a história da música é amplamente entendida enquanto a sucessão de diferentes práticas e características estilísticas ao longo de séculos de música no Ocidente, os fatores de ordem sociocultural que estão na base dessas práticas ajudam a compreender as diferentes dinâmicas pelas quais elas foram perpetuadas, desenvolvidas, aprimoradas ou mesmo abandonadas geração após geração.

Se no princípio tudo se remete à tradição oral, ao conhecimento passado do mais velho para o mais novo, por meio da ancestral relação mestre-discípulo, já no início da Idade Média o ensino da música deu um passo decisivo para sua formalização a partir do advento da primeira Schola Cantorum (literalmente "escola de canto"), que tinha como objetivo capacitar musicalmente os religiosos que integrariam o coral litúrgico da capela papal, em Roma.

Desde então muita coisa mudou em termos de formalização e institucionalização do ensino musical, ao mesmo tempo em que, de certa maneira, a tradição oral jamais foi abandonada por completo: ainda hoje em dia cantores, instrumentistas e compositores têm nas aulas individuais, na orientação personalizada o momento crucial de suas formações artísticas.

A essa aula individual soma-se uma série de aulas coletivas nas quais o conhecimento musical é fatiado em disciplinas, que destrincha a música em especialidades como teoria, percepção, harmonia, contraponto e história (entre outras), cabendo ao jovem estudante a tarefa nada trivial de amalgamá-los novamente em sua atividade musical.

Não entrarei aqui no mérito desse sistema – seus benefícios e limitações, prós e contras – que de uma maneira geral estrutura parte substancial do ensino de música em todo o planeta. Irei sim destacar duas sistemáticas ausências do rol disciplinar padrão, ainda que as consequências derivadas dessas lacunas tenham que necessariamente ser enfrentadas em algum momento na vida e carreira de qualquer músico: como viver uma vida como músico e como perpetuar e desenvolver a sua prática e conhecimento musical.

Em geral, o foco das disciplinas normalmente ofertadas aos alunos de música visa a difusão de conhecimentos artísticos e o desenvolvimento de suas habilidades enquanto artista.

[Divulgação / Flickr Svennevenn]
[Divulgação / Flickr Svennevenn]

O problema desse modelo – fundamentado no lema Ars gratia artis, isto é, na "arte pela arte", autônoma e independente, desvinculada de qualquer elo funcional, moral ou social – é que ele não inclui no processo de formação nenhuma disciplina, aula ou atividade que propicie conhecimentos básicos para, de fato, o aluno viver como músico, ou ao menos ter uma carreira independente do mainstream, fora do cada vez mais limitado e frágil mundo das instituições musicais, tais como orquestras, corais e teatros (isso apenas para nos limitarmos ao dito "universo clássico").

O modelo vigente pressupõe que a "formação do artista" deve se restringir à "formação artística", e assim deliberadamente ignora o fato que todo artista necessariamente atua em um dado contexto cultural, social, político e econômico.

Por um lado, poderíamos até mesmo conjecturar que esse modelo é herança de "bons tempos" (já diria Millôr Fernandes: "o passado é sempre promissor"), quando a formação artística bastava; uma época em que, com o diploma em mãos, o jovem talento era automaticamente absorvido por alguma instituição musical.

Tenho sérias dúvidas se isso um dia foi, de fato, uma realidade geral. No entanto, o que justifica a manutenção desse modelo nos dias atuais, em um contexto social incapaz de absorver o verdadeiro exército de jovens músicos que todos os anos se formam em incontáveis conservatórios, universidades e institutos mundo afora, em tempos em que várias orquestras, corais e teatros simplesmente encerraram suas atividades, outros tantos lutam pela sobrevivência e apenas poucos gozam de um real conforto institucional e financeiro?

A formação artística é, e deve ser, sempre a base da formação de qualquer músico, e realizar essa formação segundo os princípios da autonomia da arte é um valor que não se contesta aqui, em especial, quando se tem em vista a força colossal e destruidora das demandas do mercado e da indústria cultural, sempre ávidas por transformar a arte em mera mercadoria e a reduzir a experiência estética a estatísticas ligadas ao lucro ou aos votos (ou à combinação dos dois).

Entretanto, devemos pensar na ausência sistemática de ensino, estudo e pesquisa relacionados à atividade musical em sua dimensão social; de caminhos para a viabilização de projetos genuinamente artísticos fora do mainstream e das estruturas da "tradição"; e de um rol de atividades, deveres e desafios que circundam cada minuto de música que se apresenta num palco.

Em poucas palavras, a ausência do ensino do empreendedorismo e da produção musical tem como resultado um círculo vicioso no qual um enorme contingente de músicos artisticamente capacitados têm seus destinos presos a audições ou a concursos de admissão para orquestras, corais, teatros e escolas, e por consequência viram reféns de grupos profissionais viciados (as famosas "panelinhas") ou aos caprichos de burocratas raramente compromissados com a arte. Será que não há vida musical para além das "grandes instituições"?

O debate sobre a inclusão de estudos ou atividades ligadas à produção e ao empreendedorismo nos currículos musicais é quente e está longe de ser um ponto pacífico: apenas um percentual ínfimo das escolas de música no mundo de fato colocaram isso em prática.

Um dos principais argumentos contra se apoia na abstrata ideia de que esse tipo de estudo caracterizaria uma espécie de mácula à pureza da formação artística per se, um afrouxamento dos valores estéticos e culturais ante as forças da indústria cultural.

Mas o que se observa na prática é o contrário: é justamente por ter pouco ou nenhum conhecimento formal em produção e empreendedorismo que o jovem músico se vê encurralado a tentar a vida apenas naquilo que o "mercado clássico" demanda, isto é, modelos de espetáculos e de recepção tradicionais e fórmulas artisticamente esgotadas, mas que mercadologicamente e politicamente ainda (eu disse "ainda") garantem respaldo numérico mínimo em cada vez mais instituições clássicas.

“A ausência do ensino do empreendedorismo e da produção musical tem como resultado um círculo vicioso no qual um enorme contingente de músicos artisticamente capacitados têm seus destinos presos a audições ou a concursos de admissão, ou aos caprichos de burocratas raramente compromissados com a arte.”

Aqui podemos vislumbrar a ironia da situação: a resistência pela admissão formal e plena do empreendedorismo e da produção ao currículo de formação do músico ocorre não por seus supostos elos com as maléficas forças do mercado, mas justamente por seu potencial artisticamente subversivo, pois empreender é contestar e atuar nas estruturas estabelecidas, isto é, chacoalhar as estruturas da Tradição, na qual boa parte do corpo docente de qualquer escola de música do mundo está apoiado.

Antes de terminar (e confessadamente sem "concluir"), vale a pena lembrar que, apesar de não ser presença obrigatória do currículo musical de um músico, desde que a música é música os músicos atuaram como produtores de seu artesanato e empreendedores de sua arte. Na história da música abundam exemplos de obras que hoje são celebradas por suas qualidades intrinsecamente artísticas, mas que à época da criação foram elaboradas tendo em vista também a viabilidade econômica e o sucesso comercial.

Somar ao currículo o estudo do empreendedorismo e da produção não é enfiar um corpo estranho à prática da música: é apenas formalizar o aprendizado de atividades que integram o dia a dia de qualquer músico, e que têm se tornado cada vez mais importantes para sua existência, em especial, do imenso repertório entendido como "música clássica".