Para além do Jingle Bells

por Leonardo Martinelli 21/12/2018

Chegamos ao final de mais um ano, e tal como sempre acontece, as cidades com seus códigos mostram sinais evidentes de que há algo diferente no ar: luzes enfeitam árvores e avenidas, casas ganham uma decoração especial e cresce nas crianças uma gostosa sensação de ansiedade. Bem, por outro lado, há também filas para os estacionamentos dos shoppings, lojas caoticamente lotadas e uma interminável lista de preparativos que nem sempre está de acordo com a conta bancária (mas isto já é uma outra história...).

É Natal, e Natal é sinônimo de Papai-Noel, pinheirinho enfeitado e – como toda festa que se preze – música: Noite feliz, Batem os sinos, Adeste fidelis e mesmo o jingle publicitário de uma extinta empresa de aviação nacional estão sempre entre os grandes hits do Natal brasileiro (além, é claro, do álbum natalino da cantora popular Simone. G-zuis!)

Porém, por mais que os meios de comunicação em massa insistam neste pequeno repertório, a música natalina vai muito além do Jingle Bells e das famigeradas melodias tocadas na harpa.

Desde que o Natal foi “inventado”, o repertório musical a ele dedicado pode ser entendido como um pequeno panorama do desenvolvimento dos gêneros musicais praticados no ocidente. Importantes compositores clássicos escrevam obras para ocasiões natalinas, e mesmo no século XX, com o início da era da música popular para consumo em massa, muitas bandas e pop stars não resistiram ao apelo (mesmo que financeiro) do bom velhinho.

Mas para entender o que ocorreu com o repertório natalino através dos séculos é importante saber como esta festa tipicamente cristã surpreendentemente começou. Ou seja, que o Natal só foi incorporado ao calendário da Igreja durante o papado de Júlio I (entre os anos 337-352), ocasião em que se decidiu programar para o dia 25 de dezembro a comemoração do nascimento de Jesus Cristo.

Natal

Esta data corresponde de forma aproximada ao solstício de inverno no hemisfério norte, dia estabelecido no ano 274 pelo imperador romano Aureliano como a data para a celebração do Natalis Solis (“nascimento do sol” em latim), isto é, o nascimento de Mitras, o deus do sol.

Apesar de, no século IV, em boa parte do Europa a consolidação do cristianismo já ser uma realidade, esta festividade “pagã” continuou a ser celebrada pela população sem que a Igreja pudesse fazer algo para detê-la. Assim, a união entre esta festividade romana com o aniversário de Cristo resultou nesta festa sincrética que viria a se tornar uma das principais celebrações da cristandade.

Os primeiros exemplos musicais para esta nova festividade cristã destinaram-se à sua respectiva liturgia (isto é, à cerimônia religiosa realizada dentro do templo), que mais tarde ficaria conhecida como “Missa do Galo”, uma referência ao pássaro que anuncia o nascimento do novo dia e a concretização da profecia sobre a vinda do Messias.

Nos primórdios da música natalina, o estilo empregado era muito próximo ao do “canto gregoriano”, que é ainda a forma de cantar característica dos monges beneditinos da atualidade.

Entretanto, o aspecto sóbrio deste estilo musical, aliado à pouca compreensibilidade do texto cantado em latim, fez com que um outro repertório, cantado nas festividades fora da Igreja, fosse gradualmente se desenvolvendo na população que circundava seus templos. Na medida em que, na Idade Média, era vedado o uso de material não litúrgico dentro do templo, foi uma consequência natural a criação de um repertório natalino mais alegre destinado às celebrações domésticas. Ao mesmo tempo, esta temática tornou-se mais acessível à população, tendo em vista que esse repertório foi criado para ser cantado nas línguas locais, e não só em latim.

Na França, desde o século IX, há registros de canções populares criadas para o Natal, conhecidas como noëls. Tal como tudo o que se refere às práticas musicais antigas, ainda é incerta a ocasião em que esta música era praticada, como procissões e banquetes feudais. É também muito provável que estas canções fossem utilizadas domesticamente pela população, e há mesmo indícios de que algumas dessas canções teriam sido cantadas dentro do templo, porém em ocasiões não-litúrgicas.

A tradição das noëls se arraigou de tal forma na cultura musical francesa que ainda no século XVIII era praticado um gênero dele derivado, as noëls pour orgue, isto é, peças sem parte vocal para serem tocadas apenas ao órgão de tubos, muito comuns nas igrejas da época. Nas noëls pour orgue o organista escolhia algum tema natalino famoso, e a partir de sua melodia, tecia uma série de improvisações que faziam sucesso junto ao público. Algumas destas improvisações foram transcritas em partitura e assim puderam chegar ao nosso conhecimento.

Muitas das primeiras melodias natalinas foram criadas para a música incidental presente nas representações teatrais medievais sobre passagens do Novo e do Antigo Testamento. Sabe-se que nestes espetáculos, hoje em dia designados como Dramas Medievais, fazia-se uso abundante de música para ilustrar temas caros à cristandade, tais como a Anunciação, a viagem dos Três Reis Magos e, é claro, o próprio nascimento de Jesus Cristo.

Assim, já em finais da Idade Média, a música natalina de cunho não litúrgico já estava amplamente difundida por toda a Europa. Porém, é da Inglaterra que vem o mais antigo exemplo de tradição natalina ainda praticada hoje em dia: são canções conhecidas como carols. Jingle Bells, We wish you a Merry Christmas, Holy night, White Christmas e uma infinidade de outras canções mundialmente conhecidas têm como raiz a tradição das carols inglesas.

Originada de uma forma musical medieval francesa – a carole – em seus primórdios no século XV a carol era um gênero de canção sacra utilizada para diversas festividades cristãs, e só posteriormente tornou-se sinônimo de música natalina. Esta manifestação cultural britânica foi herdada pelos norte-americanos que, a partir da consolidação de seu “império”, difundiram as carols para os quatro cantos do mundo, tornando-a um gênero musical globalizado (se você ainda não se localizou, sabe aquela famosa cena de um coral cantando debaixo da neve que você certamente já viu em algum filme americano? Pois então, eles estão cantando uma carol).

Em outras terras as carols ganharam versões nos idiomas locais (tal como aconteceu aqui no Brasil), e sua simplicidade musical – construída a partir de melodias fáceis de memorizar – revelou-se propícia para incontáveis versões em todos os gêneros e ritmos musicais imagináveis. De versões com instrumentos africanos às batidas do rock este tipo de música natalina ainda se mostra de uma versatilidade a toda prova, usada e abusada nos jingles publicitários que se multiplicam nesta época do ano.

Porém, antes de se mercantilizar no século XX, o repertório musical natalino foi um poderoso meio de expressão da devoção do cristão. Se hoje em dia a música natalina está diretamente associada à imagem do Papai-Noel, durante o Renascimento e o Barroco ela pode ser associada às inúmeras representações da Madonna (isto é, a Virgem Maria com o Menino Jesus no colo) que nos foram herdadas dos períodos em questão.

Durante o Renascimento, o moteto (forma coral por vezes acompanhada de instrumentos musicais) foi o principal meio de realização do repertório natalino. Alguns dos mais belos exemplos foram compostos pelo compositor italiano Giovanni Gabrieli, que compôs para a capela de São Marcos de Veneza (então uma das mais ricas do ocidente) magníficos motetos natalinos, tais como O magnum mysterium e Salvator noster.

Aluno de Gabrieli, o alemão Heinrich Schütz escreveu em forma de oratório a História do Nascimento de Jesus Cristo, dando um passo decisivo para a consolidação da temática natalina no repertório musical luterano. Aliás, é da tradição luterana a origem de uma das mais aclamadas obras clássicas do repertório natalino: o Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach, que em termos de popularidade rivaliza apenas com outro oratório, O messias, de Georg Friedrich Händel.

Nestes termos, é especialmente representativo o aspecto social do Messias de Händel, pois apesar do compositor se apropriar de um gênero essencialmente sacro, e dessa música ter sido adotada como patrimônio religioso de certas designações cristãs, esse oratório foi desde o princípio concebido como uma empreitada comercial, criado como música de concerto, tendo sido estreado na Grande Sala de Música da Fishamble Street, em Dublin (Irlanda), e não numa igreja ou outro tipo de templo religioso.

Trata-se do passo decisivo para um caminho que se generalizou para toda música sacra, isto é, cada vez menos compostas e interpretadas em contextos litúrgicos e locais sagrados e cada vez mais comuns em salas de concertos e teatros de ópera. Um dos exemplos mais recentes desse tipo de obra no estilo "concerto sacro" é o oratório El niño, do norte-americano John Adams (recentemente estreado no Brasil, no Theatro Municipal de São Paulo, sob a batuta de Roberto Minczuk), que sem perder de vista a vasta tradição do oratório e da narrativa musical, propõe uma perspectiva bastante singular, mais familiar à cultura do Novo Mundo, sobre os episódios que precedem o nascimento de Jesus Cristo.

Assim, neste Natal, independentemente de qual fé cristã se pertença – e mesmo independentemente de fé no cristianismo em si – desperte-se para a beleza e riqueza do fantástico mundo sonoro que se criou em torno da temática natalina. Desligue a TV e seus tediosos programas natalinos (que até o último instante tentarão vender mais alguma coisa para você) e escolha algo verdadeiramente bonito desse repertório, abrindo seus ouvidos, para então – quem sabe? – abrir seu coração. Feliz Natal!