Luiz Fernando Malheiro fala sobre saída do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

por Redação CONCERTO 14/05/2019

O maestro Luiz Fernando Malheiro atribuiu sua saída da direção musical do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao enfraquecimento da fundação que gere o teatro, à falta de interlocução com o governo do Estado do Rio e por não querer “ser conivente com a maneira como as coisas do Theatro estão sendo tratadas pela atual administração”.

Em comunicado distribuído à imprensa, o maestro afirma que encontrou no teatro “um deprimente estado de deterioração, física, institucional e psicológica”. E que o teatro “não pode ser tratado como uma repartição pública qualquer”. “Quem assume o poder de administrá-lo tem que no mínimo conhecer sua gloriosa história e saber da qualidade única de seus artistas que heroicamente lutam para preservar e levar adiante uma tradição de reconhecida excelência”, escreve Malheiro

Leia abaixo a íntegra do comunicado divulgado pelo maestro:

“Comunico meu pedido de demissão de minhas funções junto à Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, feito ontem, dia 13/05, pela manhã.

Friso dia e horário pois estão me perguntando se tal decisão foi tomada em razão do novo corte anunciado hoje pelo Governo. Não. Essa nova informação apenas fortaleceu minha decisão.

Quando aceitei assumir como regente da OSTM e uma ‘direção musical’ do Theatro, a convite do diretor cênico André Heller-Lopes e do Secretário Ruan Lira, tinha como objetivo contribuir para por ordem na Casa. Encontrei, como é de conhecimento público um deprimente estado de deterioração, física, institucional e psicológica no Theatro.

Os Corpos Artísticos do Theatro, de incontestável excelência se encontram completamente desfalcados. Não posso permanecer sendo Regente Titular de uma orquestra que não existe mais, da maneira que consta em regulamento. Com o desproporcional e incompleto quadro atual de músicos nenhum repertório que não seja clássico, Mozart no máximo como exemplo, pode ser executado sem a contratação de um número significativo de músicos extras, onerando a verba de programação, que até agora não existe.

Esses desfalques de artistas acontecem também no Coral do Theatro e no aclamado Balé que sem contratar bailarinos extras, não consegue montar nenhum grande título do repertório.

Nosso pedido, já que concurso público no momento está fora de questão, de se contratar artistas por longos períodos, de pelo menos um ano renovável, até agora foi totalmente ignorado. Somente com a permanência de artistas nos quadros por períodos longos, permitirá que se alcance um mínimo de qualidade, como qualquer profissional sério da área pode confirmar. 

Mesmo para se contratar músicos de qualidade por concerto, a OSTM tem encontrado dificuldade, já que o Theatro goza de péssima fama, como mau pagador. Existem dívidas com músicos que participaram de programações em 2017 e que até agora não receberam.

A Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro está cada vez mais enfraquecida, sem poder de decisão e sem capacidade e independência para gerir os problemas do Theatro e de seus Corpos Artísticos, que obviamente têm características próprias de funcionamento. O Theatro não pode ser tratado como uma repartição pública qualquer. Quem assume o poder de administrá-lo tem que no mínimo conhecer sua gloriosa história e saber da qualidade única de seus artistas que heroicamente lutam para preservar e levar adiante uma tradição de reconhecida excelência.

Com muita tristeza me afasto por não acreditar que minha permanência possa mudar algo de maneira positiva e por não querer ser conivente com a maneira como as coisas do Theatro estão sendo tratadas pela atual administração.”

O maestro Luiz Fernando Malheiro durante ensaio no Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Divulgação/Gui Maia]
O maestro Luiz Fernando Malheiro durante ensaio no Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Divulgação/Gui Maia]