Formação ausente (Parte 2)

por Leonardo Martinelli 20/03/2019

Tempos atrás publiquei no Site CONCERTO a primeira parte de uma reflexão sobre dois aspectos da vida profissional dos músicos que, apesar de sua importância, seguem virtualmente ausentes em sua formação. 

Partindo da constatação de que o modelo vigente na maioria das escolas, conservatórios e faculdades de música do mundo entende que a “formação do artista” deve se restringir à “formação artística”, acaba-se por excluir de seus programas o ensino de atividades que integram o cotidiano de grande parte dos músicos profissionais.

Primeiramente, abordei a questão da produção musical e do empreendedorismo, em como o ensino desse tipo de atividade poderia dar ferramentas preciosas para o músico ter mais opções para exercer sua atividade artística, movimentar-se para além dos círculos profissionais restritos e de quebra fomentar seu potencial criativo. Estava devendo então o segundo aspecto, ligado a uma atividade quase inseparável da própria atividade musical: o ensino da música.

Mais uma vez recorro à história da música para ilustrar a questão, pois nomes que hoje temos quase que exclusivamente como compositores também atuaram de forma intensa como professores de música. Bach (o pai), além de ter ensinado os próprios filhos e propiciado a eles uma bagagem musical fundamental para uma vida profissional de sucesso, tutelou diversas turmas de um colégio durante seus anos de atividade em Leipzig. Vivaldi foi o responsável direto pela formação musical de uma grande quantidade de moças amparadas por um grande orfanato de Veneza. 

Não poucas vezes foi o dinheiro de aulas particulares dadas a senhoritas de fino trato da burguesia vienense que sustentou a família de Mozart. Seu vizinho Salieri – terrivelmente injustiçado pela ficção e infâmia que se formou em torno de sua figura – em vida era tido como uma grande referência e foi professor bastante requisitado, ostentando uma lista de alunos que inclui Beethoven, Schubert, Liszt, Meyerbeer e Mozart (não o Wolfgang Amadeus, mas sim seu filho mais novo). 

Nosso Villa-Lobos foi além e, aproveitando a chance que o acesso aos poderosos de seu tempo lhe proporcionou, chegou mesmo a esboçar um sistema de ensino musical a ser aplicado em todo território nacional. E a lista de grandes músicos-professores não acaba aqui, pois ao adentrarmos nos tempos modernos, além de compositores, ela passaria a registrar a atividade pedagógica de celebrados regentes, instrumentistas e cantores.

Muito mais do que um “bico”, um servicinho que se faz na ausência de um palco, o ensino da música é uma forma especial de prática musical, um concerto de câmara sem plateia ou aplausos, na qual as partes envolvidas engendram um círculo virtuoso em que todos aprendem, ensinam e se aprimoram, não importa se se é mestre ou discípulo. Ainda assim, por que o ensino de música não consta no currículo dos cursos de música?

É importante pontuar que há diversos programas específicos para a formação de professores de música. No Brasil, esses cursos são designados por licenciatura, e têm como objetivo primordial a formação de profissionais que atuem nos primeiros passos da educação musical do jovem cidadão, enquanto “atividade complementar” dos currículos das poucas instituições de ensino fundamental e médio que empregam algum tipo de empenho nisso (apesar de uma lei aprovada em 2008 ter tornado o ensino de música obrigatório em todo território nacional), mas sem nenhum compromisso com a formação do músico profissional. Falei disso, aliás, em um texto de 2008.

Entretanto, no Brasil e no mundo, a imensa maioria dos músicos optam, compreensivelmente, pela formação tradicional, com ênfase no aprimoramento técnico e artístico. Mas fato é que a grande maioria acaba por desenvolver algum tipo de atividade pedagógica paralelamente à sua atividade prática, por meio de aulas particulares, master classes, atuando em escolas livres de música, em projetos sociais ou comunidades religiosas, por exemplo. Uma infinidade de demandas e oportunidades profissionais estão perpetuamente disponíveis nesse campo, mas na maioria das vezes o músico conta apenas com sua intuição para transmitir seus conhecimentos e conduzir seus alunos em um processo de aprendizado. Dado o espaço que a atividade pedagógica ocupará na vida de quase todo músico, por que ainda não inserimos o aprendizado de competências pedagógicas básicas no currículo superior? E por que não apostar em um currículo de ensino superior no qual o músico sairia como uma graduação dupla, como bacharel e licenciado?

Enquanto nada disso ocorre, eis o que tenho observado na prática: um enorme contingente de músicos com diplomas de bacharel impedidos por lei a terem acesso a atividades e empregos que exigem a titulação com ênfase pedagógica. Muitos deles já estão voltando às faculdades, agora para “pegarem o canudo” da licenciatura, algo que poderia ter sido feito se já tivéssemos assumido que a música, em sua melhor forma, é muito mais que uma diversão: é o próprio exercício da vida, da civilização. E, por fim, que maior elogio um músico pode receber, após uma bela apresentação, senão ouvir que sua performance foi uma “verdadeira aula de música”?

Formação

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“Formação ausente (Parte 1)”, por Leonardo Martinelli

“Que educação musical?”, Leonardo Martinelli

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