O mundo do cravo e da música barroca perdeu, em meados de abril, Kenneth Gilbert (1931-2020), cravista, organista e musicólogo. Como poucos, ele uniu performance e erudição, transformando em arte seu profundo conhecimento da música dos séculos XVII e XVIII. Deixa importantes marcas como intérprete, musicólogo e professor.
Suas mais de cem gravações incluem obras completas de Couperin, Rameau e Bach, para selos como Harmonia Mundi e Archiv. Gilbert registrou os concertos do autor alemão para cravo e cordas com a English Chamber Orchestra e para dois e mais cravos com Trevor Pinnock e The English Concert. Como bem lembrou o crítico Clovis Marques, quando da passagem do cravista pelo Rio de Janeiro, em 1997: “Não há quem, amando a sonoridade das cordas pinçadas da velha aristocracia europeia, não lhe seja grato por tantas gravações”.
Muitos de seus registros foram realizados em cravos de sua própria coleção de instrumentos históricos, preservados no Museu de Chartres. Entre eles, a joia construída por Jan Couchet (1671), ampliada por Blanchet (c. 1759) e por P. Taskin (1778), com a qual gravou alguns de seus discos dedicados a Bach. Declarava que os instrumentos não eram “seus”, mas que estavam “naquele momento” sob seus cuidados. Manifestava, assim, a importância de que instrumentos fossem mantidos, preservados, e sobrevivessem a quem quer que fosse. Sua generosidade e seu senso de coleguismo levaram-no, muitas vezes, a emprestar alguns dos instrumentos da coleção a colegas para realizarem suas próprias gravações.
![Kenneth Gilbert [Reprodução]](/sites/default/files/inline-images/kenneth_gilbert.jpg)
Arrisco-me a enumerar meus discos preferidos: Froberger (Archiv); Cembalowerke (Novalis), um recital com autores e instrumentos variados; a integral de F. Couperin (Harmonia Mundi); O cravo bem temperado (Archiv); e as Variações Goldberg (Harmonia Mundi). Em O cravo, Gilbert oferece uma solidez de interpretação que o contraponto exige, ao mesmo tempo que exemplifica a diversidade dos estilos musicais ali contidos. Nas Goldberg, o cravista apresenta sua visão da obra como uma grande Chaconne.
As atividades musicológicas de Gilbert levaram-no a publicar artigos, mas foram as edições de obras para cravo – algumas publicadas pela primeira vez – que possibilitaram que muitos cravistas, tanto jovens estudantes como experientes profissionais, explorassem o repertório.
Talvez uma das marcas mais fortes de sua atuação tenha sido como professor, em consagradas instituições como o Mozarteum de Salzburgo, o Conservatório de Paris e a Escola Superior de Música de Stuttgart. Os nomes de alguns de seus discípulos falam por si: Scott Ross, Olivier Baumont, Davitt Moroney, Luc Beauséjour, Jos van Immerseel. Entre os brasileiros, Ilton Wjuniski e eu dividimos a honra de havermos sido seus alunos. Gilbert descendia da linhagem de Wanda Landowska, pois estudou com Ruggero Gerlin, discípulo da mestra. Apesar disso, sua visão didática diferia completamente daquela de uma “antiga escola”.
Assistindo ao filme Une leçon particulière de musique avec Kenneth Gilbert, de Michel Follin, pode-se conhecer um pouco mais de seu pensamento. O cravista afirma que “em nenhum caso tento impor minha própria personalidade aos meus alunos. Além disso, assim que vejo que é provável que ocorra uma influência muito grande, retiro-me um pouco. Acredito que os alunos precisam aprender rapidamente a desenvolver sua própria personalidade. Cada músico que formei toca de maneira completamente diferente. Não se reconhecem, creio, meus discípulos. E tenho muito orgulho disso. Porque, para mim, o papel do professor é tornar-se supérfluo o mais rápido possível”.
O cravista tinha um interesse especial pelo Brasil, o que o levou a aceitar meus convites para vir ao país, em 1993 e 1997. Tocou recitais e realizou palestras e master classes, no Rio de Janeiro e em Paraty, onde participou de um Encontro de Cravistas. A esse evento levou reflexões que deixaram marcas em muitos dos participantes. Gilbert declarou que chamava sua atenção a qualidade da execução que encontrou aqui, que superaria outros países latinos. Mas que os cravistas brasileiros não deveriam sentir-se “diminuídos” por fazerem música europeia. Afinal de contas, lembrava, o maior responsável pelo “renascimento” da música vocal barroca francesa e a grande referência do assunto na época era um norte-americano: William Christie! Outra consideração dele foi que nós, cravistas, deveríamos tomar o cuidado com possíveis rivalidades: “O inimigo não é o colega, mas a indiferença do público e dos meios de comunicação”, afirmava.
Sua postura de agregar os alunos se fez presente nos cursos que ministrava e nas relações que procurava estimular. Há alguns anos, quando tive o prazer de ter Olivier Baumont em uma palestra para meus alunos na Escola de Música da UFRJ, recebi de Reinhard von Nagel – luthier e grande amigo de Gilbert – o seguinte comentário, a partir de uma foto publicada em rede social: “Ah, a fraternidade dos antigos alunos de Kenneth Gilbert!”. Foi com esse espírito que, em 2012, a Universidade McGill em Montreal nos reuniu – alguns de seus ex-alunos – para um congresso em sua homenagem, com recitais de cravo, conferências e debates, sempre com a presença de Gilbert. A programação do emocionante encontro soube seguir o exemplo do mestre, promovendo diálogo constante entre pesquisa musical e a arte da performance.
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