Porto Alegre ganha novo palco com programação múltipla 

por Amanda Queirós 01/03/2025

Temporada do Teatro João Simões Lopes Neto será aberta em março, com produção da ópera Turandot, de Puccini 

Depois de 167 anos reinando sozinho como epicentro da cena artística de Porto Alegre, o Theatro São Pedro está prestes a ganhar um irmão. A partir do dia 28 de março, o tradicional espaço passa a dividir as atenções com o moderno Teatro João Simões Lopes Neto. O novo prédio é o elemento final do complexo cultural Multipalco Eva Sopher, localizado no centro histórico da capital do Rio Grande do Sul, em terreno anexo ao São Pedro. Sua inauguração, com a participação de mais de duzentas pessoas na produção da ópera Turandot, representa a promessa de um novo capítulo para a música lírica no estado. 

Com um fosso 30% maior que o do vizinho, o teatro comporta orquestras de até sessenta componentes, ampliando as possibilidades de repertório a ser encenado. Já o palco favorece montagens de fôlego e espetáculos de dança, pois dispensa a costumeira inclinação das casas do século XIX que costuma aterrorizar bailarinos. Cada sessão poderá receber até 576 espectadores, em poltronas de tons quentes, como vinho e laranja. O número é um pouco menor que os 650 lugares disponíveis no São Pedro, mas condizente com produções grandiosas. A eles se somam os 150 assentos do versátil Teatro Oficina Olga Reverbel, inaugurado em 2023 no Multipalco.  

“Ainda não temos uma posição final, mas há uma discussão para que o Olga Reverbel fique com espetáculos mais experimentais e pequenos recitais, o São Pedro retome sua característica original, com música de câmara e espetáculos teatrais de médio porte, e o Simões receba orquestras, dança, musicais e ópera”, afirma Antonio Hohlfeldt, presidente da Fundação Theatro São Pedro, entidade vinculada à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) do Rio Grande do Sul responsável pela gestão dos equipamentos.  

CONCEITO 

A atuação complementar desses três polos fortalece o Multipalco como complexo cultural e honra os preceitos do projeto original, concebido pelos arquitetos Júlio Collares e Dalton Bernardes. Todo o processo de construção, no entanto, exigiu paciência, resiliência, criatividade e adaptabilidade. Em 2003, Hohlfeldt era vice-governador do estado e acompanhou o lançamento da pedra fundamental do Multipalco. O investimento inicial, aliado a recursos privados captados pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, permitiu a desapropriação dos terrenos e a construção de uma praça, um restaurante e uma concha acústica, entregues em 2009, além de uma sala de música e um centro de formação cultural, inaugurados em 2012. 

Os recursos, então, minguaram, e o projeto permaneceu em banho-maria até 2021, quando o governo do estado injetou R$ 8,1 milhões para a retomada das obras. Dois anos depois, esse montante se transformou em salas de ensaio, dança e circo, além de camarins e no Teatro Oficina Olga Reverbel, intensificando ações de formação e a presença da classe artística no local por meio de editais de ocupação.  

Faltava, no entanto, levantar o Teatro Simões Lopes Neto, batizado em homenagem ao escritor e jornalista pioneiro do Rio Grande do Sul. A conclusão exigiu um aporte direto do estado de R$ 11,5 milhões e uma revisão para abarcar atualizações relacionadas, por exemplo, a normas anti-incêndio e medidas de eficiência energética. Nessa fase, o fosso da orquestra também cresceu. A princípio, o espaço dos músicos deveria espelhar o do São Pedro, com capacidade para até 45 pessoas. A sugestão de ampliação veio do maestro Evandro Matté, então diretor musical da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e engenheiro de formação.  

A mudança de rota alterou a estrutura acústica e impactou o orçamento. O estouro, porém, foi compensado com economia na execução da obra. “Isso mudou completamente o panorama do teatro, que terá muitos usos mais, com espetáculos que, de outro modo, não poderiam ser feitos”, diz Hohlfeldt. 

Para evidenciar essa versatilidade, a programação inaugural contará com dez espetáculos de diferentes linguagens artísticas ao longo de dois meses. Entre as atrações, há dança, apresentada pelos pernambucanos do Grupos Grial; teatro, com as peças Tom na fazenda e Lady Tempestade, estrelada por Andrea Beltrão; e música popular, interpretada pelo grupo argentino La Buena Moza. A agenda prevê, ainda, espetáculos de artistas gaúchos, incluindo uma encenação da peça A viúva Pitorra, de autoria de Simões Lopes Neto, e um concerto em comemoração aos 40 anos da Orquestra do Theatro São Pedro. Na sequência, o novo teatro absorve a pauta inicialmente destinada ao São Pedro, que fechará as portas para sua primeira grande reforma em 41 anos, com foco em segurança e acessibilidade. A expectativa é de que ele seja reaberto para os festejos de seu próprio aniversário, no dia 27 de junho de 2026.  

“Queremos experimentar com artistas locais e de fora o que é possível viver nesse novo espaço, com diversidade de grupos e obras com pautas muito caras e urgentes para este tempo, pensando em formação de plateia e abrangência de públicos”, explica Gabriela Munhoz, diretora-artística da fundação. 

A inauguração do “Simões” – como vem sendo chamado pela equipe – potencializa uma transformação iniciada em 2023, com a fundação apostando mais no papel de curadora em paralelo à de gestora, explica Hohlfeldt. “O Theatro São Pedro era apenas um intermediário de espetáculos [que alugavam a sala]. Agora também estamos tomando iniciativa e buscando apresentações significativas para o público de Porto Alegre. Essa é uma função que as salas precisam ter.” O direcionamento é endossado por Gabriela: “Não queremos apenas montar um quebra-cabeça com as oportunidades que surgem, acolhendo grupos com interesse de estar aqui dentro, mas fazer uma investigação do que a gente quer propor e sobre o que pretende refletir”.  

Essa intencionalidade colocará em cena uma série de peças de Érico Veríssimo (1905-75), em outubro, como parte das comemorações dos 150 anos do nascimento do escritor gaúcho. No mesmo mês, diferentes espaços do Multipalco recebem ainda a sexta edição do Ópera em Pauta, reunindo profissionais e instituições da ópera de diferentes partes do Brasil para debater desafios e perspectivas do setor.  “Nossa ideia é colocar o Simões em um circuito de teatros de ópera que não é só do Brasil, mas também de Montevidéu e Buenos Aires”, diz Hohlfeldt. 

Outro resultado direto desta postura é a acolhida da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul como residente do Multipalco. Um ano após sua criação, em 2022, o conjunto criado por Flávio Leite e Eiko Senda foi convidado a hospedar suas atividades no complexo cultural e, a partir de agora,  ter o novo teatro como casa dos espetáculos de suas temporadas anuais. Neste ano, a expectativa é aprofundar essa relação, com a realização de até sete óperas, incluindo uma nova edição do Ópera Estúdio, que promove a formação de cantores líricos e pianistas correpetidores. Turandot, de Puccini, é a primeira dessas montagens e marca também a estreia do Coro Lírico da companhia. O espetáculo terá a participação de sessenta músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e onze cantores solistas, além de atores e bailarinos.  

Croqui do Teatro Simões Lopes Neto (reprodução, Julio Ramos Collares Dalton Bernardes - Arquitetura)
Croqui do Teatro Simões Lopes Neto (reprodução, Julio Ramos Collares Dalton Bernardes - Arquitetura)

AGENDA 
Ópera Turandot, de Puccini 
Carlos Vieu – direção musical e regente 
Flavio Leite – concepção e direção cênica 
Dias 28 (apenas para convidados), 29, 30 e 31, Teatro João Simões Lopes Neto (Porto Alegre) 


Trauma familiar inspira montagem de Turandot 

Turandot se confunde com o conceito de ópera. É uma obra grandiosa, com grandes coros, solistas e uma orquestra com um protagonismo gigantesco. É um título muito popular que mostra, de certa maneira, todas as possibilidades desse novo espaço. Queremos ver como soa”, afirma Flavio Leite, que assina a concepção e direção cênica da montagem inédita da ópera que inaugura o Teatro João Simões Lopes Neto.  

A produção conta com artistas como Eiko Senda, Marly Montoni, Enrique Bravo, Giovanni Marquezeli, Gabriella Pace, Rosimari Oliveira e Daniel Germano, entre outros. A regência é de Carlos Vieu, à frente da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.  

Leite conta que, na montagem, procurou pensar a trajetória humana de cada personagem. “É uma opera obviamente passada na China imperial, mas na minha versão ela é mais inspirada no Oriente, não necessariamente na China, através da linguagem de cenários, figurinos, projeções. O ponto de partida, para mim, é essa problemática geracional de abusos contra as mulheres da família imperial que a Turandot representa e toda essa história dela com os pretendentes, por um grande trauma familiar, por sua avó ter sido morta pelo marido estrangeiro. Estou partindo disso, da tentativa de desobstrução dos caminhos do amor nessa família”, explica o diretor. “Liu é a grande catalisadora dessa transformação, a ponto de morrer por amor, mostrando que você pode amar e honrar sua família e seus ancestrais não só repetindo os problemas, mas deixando que esses caminhos sejam desobstruídos”, completa.  

Soprano Eiko Senda como Turandot (divulgação, Vitoria Proença)
Soprano Eiko Senda como Turandot (divulgação, Vitoria Proença)