No Theatro Municipal do Rio, uma viagem gloriosa ao passado

por Luciana Medeiros 24/04/2020

No período de quarentena, casa carioca tem postado em suas redes sociais gravações históricas garimpadas no acervo de Marcos Menescal, assistente de direção artística

Uma viagem ao passado glorioso do Theatro Municipal do Rio de Janeiro tem sido proporcionada a quem acompanha as redes sociais da casa carioca. Mais do que apenas lembrar grandes momentos do teatro que faz 111 anos em julho, a série apresenta pepitas da ópera, muitas delas desconhecidas – e todas surpreendentes. São áudios da coleção do tenor e assistente de direção artística Marcos Menescal. “Coleciono essas gravações desde os anos 1970, pouco a pouco descobrindo muitas preciosidades que vou postando no meu canal do YouTube”, conta Menescal.

Essa viagem musical é acompanhada por textos detalhados, do próprio Menescal, que traçam uma história da ópera como nenhuma outra no país, a do palco carioca, com algumas das vozes líricas brasileiras e internacionais de maior projeção no século XX. 

Não faltam Bidu Sayão, Alfredo Colosimo, Diva Pieranti, Niza de Castro Tank, Paulo Fortes, Assis Pacheco, Ida Miccolis, Glória Queiroz, dentre os brasileiros; e Ferruccio Tagliavini, Grace Bumbry, Beniamino Gigli, Carlo Bergonzi e até mesmo uma postagem com as arquirrivais Maria Callas e Renata Tebaldi, cuja notória desavença começou no Municipal do Rio, quando uma ganhou mais récitas do que a outra, na passagem por aqui em 1951. 

“Marcos postou um trecho de Callas cantando Tosca e outro da Tebaldi em Traviata naquela exata temporada da briga”, adianta o diretor artístico do teatro, André Heller-Lopes.

 

As dezenas e dezenas de fitas chegaram às mãos de Menescal por diversas vias. “Consegui essas gravações com Paulo Fortes, com a Rádio MEC, com Stella Regina de Loyola Póvoa, com Clara Marize, Paulo Prochet, Eduardo Álvares, Zaccaria Marques, Lauro Gomes... Enfim, trabalho de formiguinha ao longo de décadas. É uma das grandes paixões da minha vida”, explica.

 

A mais antiga gravação da coleção é um trecho do primeiro ato de Lo Schiavo, de Carlos Gomes, em montagem de 1943, com Sylvio Vieira e os cantores do Metropolitan Opera de Nova York Norina Greco e Frederick Jagel, regência de Eleazar de Carvalho. 

E a mais preciosa? “Talvez a mais rara seja a Bohème com Bidu Sayão em 1946, que postei outro dia. Não tenho conhecimento de nenhuma outra gravação da Bidu ao vivo no TMRJ”, arrisca Menescal. Há outras joias, como Malazarte, única ópera de Lorenzo Fernandez, escrita em 1941. “É tida como a primeira ópera da escola nacionalista brasileira a subir à cena”, explica. “Na estreia, foi cantada em italiano por uma companhia internacional protagonizada pelo barítono italiano Giuseppe Manacchini com cantores do Metropolitan de Nova York. Trazemos aqui uma versão dos anos 60, com regência de Francisco Mignone.” 

 

De portas fechadas desde 13 de março em função do isolamento para conter a epidemia do COVID-19, como todas as casas de espetáculos, o Municipal do Rio não chegou a iniciar sua temporada 2020. “E agora vamos recomeçar do zero a programação”, anuncia André Heller-Lopes, “para entender o que vai ser importante para o público”. 

Dentre as ideias sendo levantadas em grupos de conversa nos aplicativos, integrados pelos gestores de orquestras e teatros de todo o país, estão futuras colaborações e o reposicionamento no mercado. “Não dá para montar agora uma ópera como Yerma, muito complexa”, considera Heller-Lopes. “Mas, por exemplo, já combinamos um concerto aqui com as três orquestras do Rio, Petrobras Sinfônica, OSB e a do Theatro, numa festa que pretendemos levar, ao final, para a rua junto com a população”.

Enquanto isso, segue a quarentena. A boa notícia é que não há nenhum funcionário ou artista do Municipal que tenha se contaminado com o vírus. “E torcemos muito para que assim permaneça”, encerra o diretor artístico.

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Estreia de Malazarte, de Francisco Mignone [Reprodução]
Estreia de Malazarte, de Francisco Mignone [Reprodução]

 

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