O espírito de Britten e de Shakespeare baixou no Theatro São Pedro

por Jorge Coli 19/11/2018

Não vale a pena resistir ao trocadilho. Foi um sonho, um sonho poético e perfeito. Refiro-me à apresentação de Sonho de uma noite de verão, a que fui assistir ontem, dia 16 de novembro, no Theatro São Pedro.

Nem mesmo se trata de perfeição. É mais que isso. É transcendência poética. A música de Britten, finíssima de invenção, delicada, um tecido aéreo que cria atmosfera de ilusão e maravilhamento. Para isso, a Orquestra do Theatro São Pedro e a regência de Cláudio Cruz obtiveram o melhor resultado. A música brotava como que natural e espontânea, sem esforço, na dosagem certa. O coro era harmonioso, justo e suave. E os intérpretes!

São muitos personagens, 19 ao todo, e seria difícil imaginar essa equipe, tão grande, ser mais homogênea do que nessa apresentação – e de nível mais alto. Só posso enumerar elogios. Tytania foi encarnada por Rosana Lamosa, esplêndida na sua beleza física e na sua autoridade de rainha. Kismara Pessatti, que faz boa carreira internacional, encarregou-se de Oberon, parte escrita por Britten para o célebre contratenor Alfred Deller. Substituir um contratenor por um mezzo-soprano não foi uma traição, muito ao contrário: a beleza escura, masculina, do timbre ofereceu convicção ao personagem. 

O quarteto dos namorados que se desencontram e se encontram tinha vivacidade, adequação física e beleza vocal. As moças, Luciana Bueno e Manuela Freua, cantaram e atuaram numa cumplicidade impagável, e os rapazes, os excelentes cantores Daniel Umbelino e Johnny França, não ficaram atrás, com a expressividade de atores e a beleza do timbre que possuem. Juliana Taino e Pedro Ometto, nos papéis mais breves de Theseus e Hippolyta integraram-se sem ruptura ou desequilíbrio.

Cena da ópera Sonho de uma noite de verão no Theatro São Pedro [Divulgação / Heloisa Bortz]
Cena da ópera Sonho de uma noite de verão no Theatro São Pedro [Divulgação / Heloisa Bortz]

O bando de atores malucos que monta o teatro dentro do teatro, a peça Píramo e Tisbe dentro da ópera, foi irresistível. Saulo Javan, com sua grande voz e sua tarimba, foi Quince, o diretor de cena; Luiz Guimarães, Anderson Barbosa, Jabez Lima e Erick Souza formaram o mais hilariante bando de patetas; e a estrela, Bottom, recebeu sua alma de Homero Velho. Creio nunca ter visto esse excelente cantor num papel cômico: dominou o palco com carisma e presença. Não foi um Bottom grotesco, como de costume, porque sua elegância inata e sua harmonia física o impediam – Tytania não parecia muito infeliz ao se apaixonar por um asno daqueles –, mas muito engraçado, de qualquer forma.

O ator Rodrigo López criou um Puck mais velho do que de hábito, mais sexuado também, e nuclear na montagem.

Os elfos, interpretados por Amanda Souza, Chiara Guttieri, Thais Azevedo e Tatiane Reis, mostraram-se cheios de vivacidade e belo canto.

Muito inspirado, os cenários de Nicolás Boni: o belíssimo pano de boca, com a enorme lua; a escadaria interior, invadida pela hera, misturando-se com nuvens. Os figurinos de Fábio Namatame permitiram ir de um realismo ma non troppo no início à fantasmagoria que é o cerne da obra. Caetano Vilela criou uma iluminação propriamente miraculosa tecendo verdadeira magia visual.

Jorge Takla, o diretor de cena, principiou inventando uma casa burguesa e abastada de 100 ou 120 anos atrás, cujos patrões – Tytania e Oberon – pareciam estar numa crise de casamento. Ao transformar o jovem pajem num bebê, conferiu a Tytania um aspecto maternal de matrona, que contrastou e sublinhou sua aparição como fada no maravilhoso momento do sono. Excelentes soluções captaram e realizaram de modo inspirado, as intenções da obra. Acrescento que os cantores tiveram, de modo evidente, uma ótima direção cênica. 

Com tudo isso, o espírito de Britten e de Shakespeare baixou, com toda felicidade, no Theatro São Pedro.

Veja outras fotos da ópera Sonho de uma noite de verão do Theatro São Pedro:

[Divulgação / Heloisa Bortz]
[Divulgação / Heloisa Bortz]
[Divulgação / Heloisa Bortz]
[Divulgação / Heloisa Bortz]
[Divulgação / Heloisa Bortz]
[Divulgação / Heloisa Bortz]
 

Texto editado em 21/11 para inclusão do nome da soprano Tatiane Reis, que interpretou o elfo Cobweb, e para a correção do nome do figurinista da ópera, Fabio Namatame.