No centenário de Santoro, ‘Alma’ tem seu ano-zero

por Leonardo Martinelli 29/05/2019

Durante um descontraído bate-papo em um café na Rua Barroso, a poucos metros do Teatro Amazonas, o proprietário, de ouvido atento, se aproxima da mesa e, com um tom orgulhoso, informa: foi nessa casa onde Claudio Santoro (1919-1989) ganhou seu primeiro violino. A casa ainda pertence a parentes distantes do compositor, que há cem anos nascia na capital do Amazonas – e se tornaria um dos mais importantes nomes da cultura musical do Brasil.

Ao longo deste ano, diversas homenagens estão sendo realizadas para celebrar a data. Mas dentre concertos, recitais e gravações, talvez nada seja mais simbólico e emocionante que a montagem realizada pelo Festival Amazonas de Ópera de sua ópera Alma, obra-prima que, a partir dessas récitas, ingressa de forma definitiva no cânone do teatro lírico nacional.

Não se tratou da estreia do título, uma vez que ela ocorreu em 1998, também em Manaus. Entretanto, na ocasião, não se tinha ciência de que a partitura disponível não estava completa. A descoberta ocorreu recentemente, quando no início do ano um dos filhos do compositor, o também músico Alessandro Santoro, revisitou o material manuscrito da ópera e encontrou uma série de adições à primeira versão da partitura.

Dividida em quatro atos, Alma é baseada na primeira parte da trilogia Os condenados, de Oswald de Andrade, virtuosa narrativa construída de forma concisa e fragmentada, e a partir da qual Santoro elaborou o libreto para a sua ópera.

Cena da ópera 'Alma, apresentada no Festival Amazonas de Ópera [Divulgação/Michael Dantas]
Cena da ópera 'Alma, apresentada no Festival Amazonas de Ópera [Divulgação / Michael Dantas]

Após uma abertura orquestral, na qual é apresentado o lindo leitmotiv de Alma – originalmente, tema de uma canção de amor que Santoro dedicou à sua esposa, a coreógrafa Gisèle Santoro –, tem-se uma ária de apresentação da personagem-título, a qual se sucede uma série de “episódios líricos”, de natureza fragmentária e contundente, que ecoam a própria estrutura literária da obra de Andrade. 

Nos primeiros dois atos o compositor delega às personagens a ênfase na condução desses episódios. Já no terceiro e quarto atos (também esses agrupáveis em um ato único), a condução narrativa passa a ser compartilhada por um coro grego, que fora de cena, ora narra os acontecimentos, ora os comenta, de forma cada vez mais proeminente. Tal opção não chega a quebrar a unidade estilística da obra, mas inevitavelmente imprime uma mudança de fluxo dramático que sempre será um desafio para sua encenação.

É especialmente brilhante a forma como Santoro lança mão de elementos musicais evocados pelo enredo – isto é, a música popular urbana brasileira da primeira metade do século XX –, sem jamais deixar-se arrastar pelo pastiche ou pela paráfrase. No final, sua música e estilo prevalecem de forma sólida e incontestável: como sair de uma récita de Alma sem assoviar seu leitmotiv ou tê-lo reverberando na cabeça?

A montagem recentemente realizada em Manaus traz enfim à luz o valor pleno dessa obra, que para todos efeitos, somente agora ingressa de maneira definitiva no cânone do teatro lírico brasileiro. Dessa forma, precisa ser tratada como tal, ganhando um meticuloso trabalho de edição e fixação do texto de sua partitura a partir do colossal trabalho já realizado por Alessandro Santoro e pelo regente Marcelo de Jesus. Somente isso garantirá que Alma possa ser encenada em outros teatros do país e do mundo. Que, a partir desse seu ano-zero, inicie-se uma longa e auspiciosa trajetória dessa obra-prima da música moderna brasileira.

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